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Primórdios

7 de maio de 2010 por Nell Felix  
Arquivado em Quadro a Quadro

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13 comentários


Foi em uma noite quieta que recebi uma mensagem interessante de uma amiga que possuo há alguns anos.

“Preciso falar com você”, dizia. “Tenho uma proposta”.

Obviamente, porque a vida acontece com frequência metendo-se em meio a nossos planos, apenas uma semana ou duas depois, que consegui entrar em contato com ela normalmente.

Aí o desafio foi lançado: escrever uma coluna sobre um dos meus hobbies mais que sinceros e prazerosos:

Mangas Yuri

Ora essa, nossa querida leitora, sapatilha padrão, cuja vida não foi invadida na juventude – ou até um pouco mais tarde – pela febre japonesa de quadrinhos e animação (que começou há muitos anos com o maravilhoso sucesso de Akira e outras coisas do tipo, que não vem ao caso no momento), obviamente não tem a mínima ideia do que estou falando – o que me leva ao meu mais importante ponto aqui:

Essa coluna é para você

Comecemos pelo começo, queridas botinas: manga (também conhecido no Brasil como mangá), não é o desenho animado, mas sim as histórias em quadrinhos japonesas. Quando se fala de hq, nossos queridos humanos do outro lado do mundo definitivamente são os campeões em se tratando da diferenciação de gênero. Sejam histórias para crianças (kodomomuke), jovens mulheres (josei), molecada em geral (shounen ou shoujo, dependendo do sexo e conteúdo), rapazes (seinen), ou, enfim, lésbicas (também chamado de yuri fora do japão).

“Oh! Mas, não!”

Ora, pois sim, minhas sapinhas! Enquanto aqui no Brasil engatinhamos artisticamente no mundo homoerótico (ou simplesmente homossexual) de quadrinhos ou qualquer coisa que não seja um bom e belo livro, a galera do olho puxado já está nessa de escrever quadrinhos sobre mulheres entrosando-se com outras há uns bons 40 anos.

E você que achou que The L Word era mó incrível e radical, mano. Tsctsctsc.

Mas é claro que nem tudo é assim bem bonito…

Obviamente, como tudo nesse mundo, há um princípio, e neste em especial, começa com certa pessoa chamada Nobuko Yoshiya.

Yoshiya era uma escritora de romances entre garotas – tipo a Cassandra Rios, mas sem toda aquela parte erótica.

Por que digo isso?

Bem, imagine-se você em sua casa, lendo uma história dramática e excitante sobre duas mulheres que se amam tanto, tanto… Mas uma delas de repente se casa com um cara e “não vamos mais falar disso, já estou feliz e hetero”. Ou você se pega num outro dia lendo outra história incrível como a primeira, onde a heroína alimenta dentro de si um destemido respeito misturado com amor e admiração, beirando a uma imensa paixão, por aquela colega de quarto/moça mais velha/irmã mais velha de sua melhor amiga/melhor amiga/professora e… E daí a protagonista se forma no ensino médio, conhece um cara, casa-se, tem filhos e leva todo o seu histórico lésbico como um grande aprendizado, ha-ha-ha.

Se você tem algum senso de bom-gosto em sua pessoa, assim como eu, tacaria o manga na parede. Ou tacaria no fogo. Ou apenas ignoraria sua existência para todo o sempre. Ou venderia no Ebay como uma maldição de filme de terror oriental: “passa pra frente porque é melhor do que ficar contigo” (e ainda ganharia uns trocados em cima do bicho).

Era por aí que a coisa andava. A senhora dona Yoshiya escrevia muito esse tipo de coisa, e acredite nisso ou não, o tema clássico dos mangas yuri era exatamente esse: drama descabido terminado em morte e/ou casamento com um cara. Meio que cheira um bocado à Lost and Delirious, não?

Ainda bem que o mundo anda…

O tempo passa, voa, e os temas, obviamente, mudam. Hoje em dia, não temos mais tantos títulos reservadamente pitorescos e tristes. Temos artistas talentos@s. Temos histórias cujos temas vão desde a vida de colegiais descobrindo sua sexualidade durante inúmeras edições, até outras mais adultas, com um contexto mais interessante para as faixas etárias mais avançadas.

No final das contas, é para isso que existe essa coluna. Porque, por mais que o número de histórias em quadrinhos sobre casais lésbicos seja mais abrangente em temas – ou com eles pelo menos em evidência, ou com isso sendo somente mais uma parte da vida das personagens – sempre existirão histórias não tão legais, ou não tão apropriadas para nosso estômago no dia-a-dia.

E eu?

Serei seu querido filtro, caçando e depositando em sua vida um pouco mais de cultura lésbica em uma mídia diferente, vinda de todos os cantos do mundo, mas sem perder a qualidade.

Porque, sinceramente, historietas sobre colegiais que usam sua homossexualidade de trampolim pra vida adulta ao lado de um cara a ponto de negar tudo o que se passou antes, ninguém merece.

Nell Felix

Estudante de artes sequenciais e quadrinização no Canadá. Autora abcLES. Coluna: Quadro a Quadro. [Perfil]

 

 

Comentários

13 comentários para “Primórdios”
  1. Eu confesso que nunca li um manga, mas fiquei curiosa. Vou esperar as dicas. Adorei a coluna!
    bjos
    Bru

  2. quacli quacli disse:

    Uhuuuuuuuuuuu! Dá-lhe Nell Félix….Adorei a estréia da coluna! Muito boa! É isso aí, a mulherada tem que conhecer novas mídias que contam histórias lésbicas! Grande Idéia Dani!

    bjão pras duas!

  3. Hahaha! Foi maior suspense a investida, né? Rs.

    Que bom que aceitou a empreitada. Quando tive a idea dessa coluna, em nenhum momento pensei em outra pessoa.

    Bem-vinda ao abc, querida amiga. Muita sorte e sucesso!

  4. Lua de Morais disse:

    Inicialmente tinha uma certa aversão a mangás. Até receber uma indicação, optar por segui-la para tão logo convulsionar. Foram dias imersa nesse mundo. Precisava fazer “estudo de caso”, ou algo semelhante, ao mesmo tempo em que me envolvia e me apaixonava pelas histórias – ora curtas, ora extremamente longas. Nesse ínterim me deparei com enredos absolutamente intrigantes, românticos e profundos. Assim como aqueles rasos, de amores sem fundamento. Ou até mesmo aqueles de fim irrisório, tal qual o que você citou. Nessas imagens, reconheci alguns. E me interessei sobremaneira por não identificar outros.

    Então vou esperar.

    Adorei o post.
    Até logo.

    • Nell Felix disse:

      Alguns de fato são novos – inclusive, ainda estão sendo lançados do outro lado do mundo.
      Meu maior problema, confesso, é o fato da maior parte desse material estar em inglês – e nem todo mundo saber a língua do tio sam. Mas eu dou um jeito.
      Espero poder lhe apresentar algo novo que tenha a mesma força de te encantar que outras.
      Até.

  5. Chunli disse:

    Bom, eu não costumo ler mangás yuris, nem yaois, mas gosto dos dois. (Huaahuaahau, será que me fiz entender? XD)
    Vou ficar atenta a esta coluna, já que você dará dicas de mangás… quem sabe assim eu não fico conhecendo mais o universo yuri?

    Agora… Revoltante mesmo esse negócio ter uma paixão estonteante por uma amiga na adolescência, pra depois terminar com um cara… ¬__¬ É tão broxante quando algo começa com temática homo e termina hetero…

    • Nell Felix disse:

      Okay, deixe-me ver se eu entendi, você curte o gênero mas não se aprofunda… i guess? hahaha
      A idéia da coluna é mostrar uma outra forma de leitura, com mais imagem e menos palavras.
      Se você vai conhecer muuuito mais do mundo yuri, eu não sei, já que eu vou falar e indicar coisas não tão mainstream. Mas que você vai conhecer mais mangás de qualidade, ah vai.

      E de fato, essas coisas de namorar guria e terminar com um gajo não tão com nada U_U

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