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A vida é muito mais do que padres e pastores dizem que é

25 de janeiro de 2012 por  
Arquivado em Colunas, Destaques, Movimento, O amor que ousa dizer o nome

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4 comentários

Pedro é filho único, nasceu numa cidade pequena, dentro de uma família fervorosamente religiosa. Foi batizado, como os pais queriam, e cresceu indo à missa todos os domingos. Entrou para a catequese ainda cedo e logo posto para ser coroinha.

Afora isso, estudava, brincava com os amigos na rua. Adorava-os. Seus olhos brilhavam quando via os meninos correndo atrás da bola. Era o goleiro porque isso o permitia ficar olhando, observando sem que isso os incomodasse.

Foi ensinado em casa, na escola e na igreja que deveria crescer, se tornar um homem e ser pai de família. Essa era a única possibilidade de futuro que conhecia. Pedro, porém, não via graça nas meninas da escola, nem nas primas, nem nas que moravam em sua rua. E apenas ouviam quando os meninos enchiam uma ou outra de elogios.

Como se mantinha sempre ocupado, porém, não ligava para o assunto. Viveu a infância feliz, chegou à adolescência e era sempre coberto de elogios pelos pais, tios e avós. Era o menino de ouro, que se esforçava nos estudos, vivia cercado por outros meninos, sempre sorridente, gentil, nunca faltava a uma missa, ia sempre à catequese e ainda era coroinha. Alguns diziam que se tornaria padre. Ele não dizia nada.

Os problemas começaram quando os amigos começaram a ter suas namoradinhas. Ele não. Até que um dia ouviu pela primeira vez o novo apelido: “viadinho”. Ficou profundamente assustado. Não poderia ser aquilo. Não poderia ser anormal, um doente, uma pessoa que por seus atos se condena ao inferno.

Sempre ouvira piadas e comentários maldosos em relação a rapazes que se relacionavam com outros rapazes. Sempre ouvira a mãe dizer que preferia não ter tido um filho se fosse para ele ser daquele jeito. Ser “viadinho” era sujo, pecado mortal, era errado. Pedro não queria acreditar que o amor que sentia por seus amigos, em especial por Thiago, era aquilo que seus pais, os padres, os professores e a catequista mais abominavam.

Sem ter com quem conversar, recolheu-se. Porque o que não era aceito era melhor que ficasse escondido. Tinha medo, muito medo. Medo de si mesmo. Vergonha do que sentia. Vergonha de saber que os olhos brilhavam ao ouvir a voz de seu amigo. Vergonha de desejar a companhia dele mais do que a de todos os outros. Vergonha de querer passar dias e dias junto.

Pedro não aguentava mais e procurou um padre par ajuda-lo. Foi aconselhado a deixar esses desejos pecaminosos, esses pensamentos sujos que só o afastavam do caminho de Deus e procurar seguir o caminho da bíblia. E assim ele fez.

Fez faculdade, arranjou emprego e se casou. Passou a morar fora da casa dos pais, formou uma família. Continuava indo à missa todos os dias, repetia os discursos dos padres, dos pais, se horrorizava quando via um homossexual na rua. Ou fingia. Porque seu desejo era ser exatamente o que o outro era. Andava na rua de cabeça baixa com receio de que algum homem o flagrasse olhando, tinha medo de ser acusado de ter uma recaída.

Em casa, mantinha-se silencioso. Era rígido com os filhos porque achava que assim eles não se tornariam anormais ou doentes da homossexualidade. Era frio com a esposa, como tinha tido o exemplo em casa. Tornou-se um sujeito amargurado, taciturno, de poucos amigos, distante de si mesmo, que se obrigava a gostar de cerveja e futebol e a falar de mulheres no bar. Bebia. Bebia mais do que podia para esquecer os dias e desejava o fim de sua existência. Mas tinha certeza de ter dado aos filhos o exemplo certo e de que eles não se desviariam do caminho e jamais seriam “viadinhos”.

Heranças

Esta é uma história fictícia, mas baseada em fatos reais. O assunto desta coluna me foi trazido pela PrY, por e-mail, sugerindo que eu escrevesse sobre como a lavagem cerebral promovida pelas igrejas contra nós, homossexuais, é capaz de arruinar a vida de muitas pessoas.

Quantos homens e mulheres se casam e constituem família por que isso é uma obrigação? Não sei precisar. Eu fui ensinada assim. Fui criada num berço católico e sou considerada uma aberração porque me recuso a estar com um homem e rejeito totalmente me casar com um. Não, meu desejo é por outra mulher. E sou assim desde criança.

É lamentável os danos que uma educação moldada pelos ditames religiosos leve a absurdos, fazendo com que crianças e adolescentes carreguem para a vida adulta uma culpa que não existe e, por conseguinte, torne penosa a existência numa sociedade que tem medo de ver beijo gay na novela das oito, mas que se delicia assistindo a atrocidades em noticiários sensacionalistas.

É muito difícil compreender por que a comunidade religiosa fundamentalista é capaz de perdoar assassinos, bandidos ou estupradores que se convertem à religião e não aceitam que eu caminhe de mãos dadas com minha namorada pela rua, e não aceitam que um homem AME outro homem e que formem uma família.

Na vida de milhões de homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais, o sentimento religioso e o temor ao deus são nitidamente reforçados, todos os dias, fazendo parecer que a religião por si mesma possa impedir naturalmente as escolhas humanas e o desejo velado de nossas mais profundas vontades. Não é bem assim.

Somos totalmente despreparad@s para a quebra de padrões instituídos na sociedade patriarcal, machista e heterossexual. E precisamos aprender imediatamente que as diferenças são só diferenças e não defeitos! Até quando haverá uma espantosa quantidade de dor causada por essa ignorância da hipócrita sociedade? E a responsabilidade pela mudança também é nossa.

Ser feliz é SER

Ser o que somos. E enfrentar as consequências por se ter coragem de ser feliz. Eu sou GAY e me orgulho! E digo para todas as pessoas, lésbicas, gays, bissexuais, trans e héteros: a vida continua e construir o amanhã é responsabilidade de cada um, apesar do que dói aqui dentro.

Temos que seguir de cabeça erguida, buscando sempre o melhor, mesmo sem nenhuma certeza de que vamos chegar lá. Isso porque nem mesmo nós sabemos onde é esse lá. Mas sabemos o que desejamos: um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, sem demagogia. E enquanto caminhamos, o importante é fazer da travessia sempre uma descoberta, um reencontro, um renascimento.

O importante é crescer para dentro e ficar maior do que o nosso próprio sonho. A vida pode ser ainda se a vida está viva. Morrer não é apenas estar enterrado. Morre quem anda sempre de olhos fechados, quem esqueceu a alegria no banco de trás do ônibus, quem não sabe quem é quando se olha no espelho porque escolheu se esquecer de si mesm@.

Ser feliz exige coragem. E pode ser que leve tempo para aprender que a vida ainda é a resposta quando tudo agoniza; que não precisamos segurar o vento com as mãos, mas apenas senti-lo no rosto. No entanto, temos que dar uma chance não apenas ao mundo, mas a nós mesm@s. Temos que crer que apesar dos joelhos esfolados e de termos perdido nossos melhores pedaços, podemos levantar e seguir nossa trajetória. Isso não é uma visão romântica da vida. É apenas a necessidade de sobreviver a si mesm@ e continuar sem escutar o “NÃO” da sociedade para nossa existência.

Dizer “não” é mais fácil do que dizer “sim”. Dizer “eu não sou gay” é mais fácil do que se orgulhar de dizer “eu sou gay”, não apenas com palavras, mas em atitudes, todos os dias. Quando dizemos não, protegemo-nos das decepções, não damos a cara a tapa. Agora, o sim implica em inúmeros desafios porque expomo-nos e nunca sabemos as consequências reais. Tudo na vida é uma questão de não ou sim.

Então, vá lá e diga sim a você mesm@ primeiro. Aceite suas inseguranças, erros e medos sem culpa: ninguém é perfeito, nem héteros nem LGBTs. Procure a sua felicidade sem se importar com o tempo. Ele é nada mais do que um conceito. E acima de tudo, não perca de vista o seu coração, aquilo que VOCÊ É. Porque quando deixamos de sentir, deixamos de ser.

 


Comentários

4 comentários para “A vida é muito mais do que padres e pastores dizem que é”
  1. LuNessa Castelo Branco disse:

    Uau… Sem palavras para as duas… Só posso agradecer por nos contemplar com suas palavras! Já pensaram em um texto em conjunto?? Seria simplesmente esplendido e extremamente vivaz e esclarecedor para todas que lerem essas linhas de tamanha força!

    GE: Arranjou uma fã viu! Na verdade, outro dia fiz uso de sua palavras para rebater uma ofensa sem tamanho aos nossos direitos! Fui elogiada, fiquei feliz, mas dei à você os créditos tão merecidamente, mencionando seu nome, claro!!

    Bjos Brunella e Ge,e que venham mais desses para o prazer de minhas leituras!

  2. Gesperanca disse:

    Dependesse de mim sua coluna seria semanal.É sempre muito bom andar por suas letras.Percorrer seus pensamentos.
    Dias desses tive uma crise vesicular absurda, dói muito, tomei uns analgesicos mas a dor piorou; nao quis ir ao hospital com receio de acabar ingerindo medicação em excesso. Aos prantos com a dor dilacerante vi duas cenas que me enterneceram: minha mãezinha se pôs a orar e minha sobrinha querida sentou-se em minha cama e me afagava as costas incansavelmente. Ficou ate de madrugada nessa condição e quando melhorei trouxe um colchão para dormir ao meu lado. Ela não professa religião alguma embora em casa sejamos todos evangelicos. Mas me apontem a diferença entre uma ação e outra? Para mim foram duas expressões de amor e este é inerente a credo religioso.
    Hoje,quando cheguei em casa do trabalho, extenuada e esfomeada porque não almocei, ela se adiantou em fazer meu prato, suco e ate sobremesa. Quando olho para ela vejo que o objetivo foi alcançado, ela foi evangelizada, mas não com dogmas , tradições ou interpretações incorretas,foi com amor. Jamais ela ouviu em casa que sua orientação lhe faria maldita no ‘céu’ e fora dele. Quando a nossa doce menina se disse gay, foi um susto. Ouvimos suas explanações , fizemos perguntas, choramos e rimos,ela imprimia reportagens, artigos e dialogavamos sobre eles.Assim fomos nos inteirando da sua vida e estamos aqui mais fortes que antes. A conclusão foi simples:porque Deus não amaria uma criatura tão especial quanto ela? Pro futuro desejamos que seu carater se fortaleça, seja honesta, trabalhe em algo que goste, conheça pessoas, se apaixone e se nao der certo, se apaixone novamente, e tenha sempre um tempinho para visitar o lar das velhinhas dela…srrsr Não conseguimos imaginar a nossa casa sem o sorrisão facil dela chacoalhando-se toda com as peripecias da avo; nem suas gargalhadas quando me faz assistir uma temporada inteira de Glee no sabado que eu ia pescar, ou quando sua mãe ri da piada meia hora depois.Não vou me privar dos altos papos que temos sobre a vida, o mundo, os seres , porque a mãe dela vai ter uma nora ao inves de um genro. E nao é benevolencia, é respeito pela individualidade que trazemos no DNA. Somos evangelicas, frequentamos a igreja, recebemos visitas e ela esta presente em tudo. Se tiver alguem incomodado, pago a passagem de volta. Mas jamais permitiria que ela se retirasse do ambiente para nao deixar alguem desconfortavel. Ela pertence a nossa familia.Ela é uma benção jamais abominação. Ela é perfeita e normal. Tambem é bastante saudavel e como homossexualismo nao é virus ela pode conviver com todos sem receios.Os ajustes nos vamos fazendo com dialogo e respeito.Falei bastante de novo não é Brunella? E te confesso que o espaço parece que encolhe diante de tanta coisa a ser escrita. Mas ,chega…srs Um enorme abraço. Avante , sempre!

    • Giiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, semanal eu, infelizmente não posso postar.
      =/
      Ficaria pesado…

      Sabe, a sua relação com sua sobrinha é algo tão lindo e precioso que me emociona, mesmo estando eu a quilômetros de distância de vocês. É porque é sentimento verdadeiro, eu sei.

      E meu desejo era só que pessoas da minha família lessem os seus relatos e entendessem que eu não deixei de ser uma pessoa porque sou gay, mas que isso é parte da mim, da menina que fui, da adolescente que cresceu e da mulher que venho me tornando.

      E você nunca escreve ou fala demais, Gi. Se eu conseguisse, escreveria sim uma coluna toda semana só para ter suas palavras aqui junto das minhas.

      Um beijo imenso, cheio de carinho!
      Bru

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