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E a coerência, como vai?

31 de julho de 2010 por Danieli Hautequest  
Arquivado em Colunas, Destaques, Editorial

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17 comentários

Na vida, tentamos (ou deveríamos) ser coerentes. Oferecer aquilo que realmente condiz com o que temos. Seja emocional, material, e, também, agirmos de acordo com a situação e finalidade. Com textos, não é diferente. Por exemplo:

Doutora Amanda Munhoz estava irritada. Não contava com o engarrafamento terrível ao qual foi obrigada a enfrentar, naquela manhã. Saia de casa sempre cedo, justamente para evitar o risco de atrasos. No entanto, por mais responsável que fosse não estava livre de imprevistos. Um acidente na pista durante a madrugada, o responsável por seu desgostoso dilema.

Trinta longos minutos depois do início do experiente, enfim seu consultório. Na pressa por recuperar o tempo perdido, Amanda deu apenas um rápido cumprimento à atendente e um bom dia tímido aos pacientes, que, àquela altura, deveriam estar inquietos com a demora.

Em sua sala, jogou sua bolsa no armário, sentou-se em sua cadeira, respirou profundamente:

– Ae, colega! Manda o primeiro boi entrar! — disse ao interfone, para a atendente.

*barulhinho de vinil sendo arranhado*

ÊPA!

Notaram a discrepância gritante?

Até a infeliz fala da personagem, qual a ideia apresentada a respeito dela?

– Uma pessoa centrada, responsável;

– Médica. Mesmo que não tivesse vindo de família abastarda, teoricamente, deveria ter ótima educação.

A frase para com a atendente ficou totalmente incoerente com a imagem dada até então. O que nos faz, ao ler algo assim, irrevogavelmente torcer o nariz com a falta de cuidado da autora ao montar sua personagem. Numa simples passagem, a história já perde pontos.

Por mais que a médica tivesse intimidade com a atendente, e em vista disto, até se valesse de uma linguagem mais coloquial, provavelmente não usaria de tais termos, por estarem em ambiente de trabalho, e mais uma vez, por tal linguagem não condizer com o perfil até então apresentado da personagem.

Em uma linguagem mais informal, poderia ficar algo assim:

– Simone, querida! Por favor, pede pro primeiro paciente entrar, sim! — disse ao interfone, para a atendente.

Notem que ali se teve o uso do coloquial pro em vez de para o, da linguagem culta. Nestes casos, é correto usar, pois tratar-se da fala direta da personagem, ou seja, é a “pessoa”. Entende-se que nessa fala, no seu modo de se expressar, ela carregue educação, nível cultural, entre outras coisas. Ou seja, haveria uma conversa rápida e informal entre médica e atendente, contudo, preservando certos níveis de postura.

Acaso fosse uma narração, teria que ser usada a linguagem culta, pois é a nossa norma oficial. Ficaria assim:

Em sua sala, jogou sua bolsa no armário, sentou-se em sua cadeira, respirou profundamente e pediu para que sua atendente mandasse entrar o primeiro paciente.

Estes cuidados devem se aplicar na construção de cada personagem, para que possam agir e falar de acordo com seu eu psicológico.

Não é incomum vermos uma personagem nos ser apresentada de forma X, e lá no meio da trama, agir como se fosse outra pessoa, para se adequar a uma “reviravolta” na história, que na maioria das vezes, não passa de um remendo a uma má construção de enredo, onde a autora nem sabe mais o que escrever, e fica inventando trama dentro da trama para ver se numa dessas enfim acha um rumo.

Válido lembrarmos que as pessoas podem ter atitudes extremas em momentos complicados, mas aí, isto deve ser entendível durante a ação. Houve uma motivação.

Em trama que aconteça um mistério, a personagem pode agir de uma forma, ocultando seu real caráter, até o momento da revelação de suas armações. Entretanto, mesmo sem expor ser ela a praticante das “canalhices”, tais situações devem ser apresentadas dentro da história. Não se pode simplesmente “jogar” uma reviravolta, ela deve ter sido, mesmo que em alguns casos, sutilmente (estes são os mais difíceis e literariamente ricos), conduzida ao longo do enredo, até seu ápice.

Às vezes vejo ótimas ideias, personagens maravilhosas, que se perdem em meio à falta de elaboração, furos nos roteiros e discrepâncias quilométricas entre os psicológicos. Quando se vai produzir uma história, tem que se ter em mente que você está criando vida.

Como é essa “pessoa”? Seu passado? O que ela pensa? O que ela gosta? O que ela quer? Agiria assim em situação X?

É trabalhoso? Com certeza! Mas certamente, também, torna a história mais consistente e real. Este real, não se refere à realidade x ficção. E sim, real no sentido de possível, convincente, mesmo que a trama seja a mais fantasiosa.

Literatura é contar histórias. Uma história bem contada é aquela que emociona, justamente porque as situações e sentimentos narrados nos convencem. Tem que haver empatia, senão, não passa de um grupo de parágrafos.

Aí uma autora mais “preguiçosinha” pode dizer: DH, sua CHATA, escrevo por hobby, porque gosto. Não preciso perder tanto tempo. Não vou lançar um livro, oras! É “apenas” publicação na net.

Respondo: leitora lê por hobby, porque gosta. MAS, somente aquilo que a agrada e segura sua atenção. Ou seja, também não vai perder tempo… Em procurar outra coisa para ler. Na “net” têm VÁRIAS, queridona :D

Deixando a brincadeira, vamos ser realistas. Quem se dá ao trabalho de escrever algo e publicar na internet, é porque, no mínimo, quer ser lida. Por que não usar de mecanismos que deixem sua escrita mais atraente? Por que não evoluir?

Furos de roteiro, construção de personagens e afins têm muito a ser abordado. Em futuros artigos, espero retomá-los e debater mais os temas com vocês.

Grande beijo, e até o próximo! :)

PS.: os trechos usados para demonstrarem os exemplos foram escritos por mim para usar neste artigo.

Danieli Hautequest

MG. 33 anos. Diretora e Editora do Novo Prisma Editorial, Escritora, Colunista e Administradora do abcLES. Colunas: Editorial, Ménage à Quatre. [Perfil]

 

 

Comentários

17 comentários para “E a coerência, como vai?”
  1. Astridy Gurgel disse:

    Gostei muito do seu texto e acho que você tem toda a razão. Não sei se tive essa preocupação em todos os meus contos, não recordo muito agora. De qualquer forma valeu o toque para ficar mais atenta no futuro.
    Beijos e obrigada.

  2. quacli quacli disse:

    Olá Dani! Achei muito pertinente o tema abordado! A coerência é fundamental na construção de uma história e de seus personagens! Estes, quando possuem “múltiplas personalidades” realmente desencorajam a continuação da leitura!
    Parabéns pela abordagem! Muito bem trabalhada!

  3. rose disse:

    ARRASOU!!! Literalmente…rsss
    Sei que os textos sofrem alguma revisão, acompanhamento, etc, mas tem alguns que dá nos nervos de ler. Não sou escritora, mas o mínimo que devemos fazer é saber nossa língua, não precisamos ser “experts”, mas como você disse, se quer postar qualquer coisa que seja, saiba o que está escrevendo.
    Sem contar, é claro com aqueles contos que nunca terminam. A história já era há muito tempo e o negócio não acaba. :(
    Mais uma vez, parabéns pela abordagem, e como dizia minha vó: “Pra (pra mesmo)bom entendedor um pingo é letra.” 8)
    Beijos.
    Rose.

  4. Sensacionaaaaaaaaaaal!
    Se tem uma coisa que me faz desistir DE VEZ de uma história são os erros de português.
    A história pode nem ser brilhante, mas se tem uma personagem boa, vou até o fim.
    Ou as personagens podem ser as mais óbvias possíveis, mas a história prende. Então, sigo até o ponto final.
    Mas se os capítulos são cheio de erros de português… Hum, a história pode ser foda, as personagens podem ser tudo, que eu simplesmente não consigo ler… :p
    É, eu sou chata mesmo com isso. Assumo! :bandit:
    Editorial mais que perfeito, chefíssima.
    Beijos…
    Bru

  5. Ká disse:

    Fiquei muito feliz com esta iniciativa do editorial. Na verdade, me sinto muito feliz por ter uma leitora crítica que só faz engrandecer minha história, e, aproveitando a deixa, quero deixar a humilde dica para as autoras: por melhor que o escritor seja, ter alguém para compartilhar suas ideias e analisar da ponta, sob a ótica do leitor, as suas histórias, só enriquece o produto final.

    Chefenha, você é 10! :love:

  6. Chunli disse:

    É aquele negócio. Verossimilhança. Nossos personagens têm que se portar da maneira como esperamos deles.
    Todo mundo espera que o Superman enfraqueça diante de criptonita. Se isso não acontecesse todo mundo acharia estranho.

    Mesma coisa com os personagens que criamos. Quando ele tem uma base de personalidade e identidade, ele não pode fugir do que ele mesmo é. Isso seria bizarro… só se ele tivesse dupla personalidade XD

  7. Suellen Suh disse:

    Dani, ótimo assunto para se abordar!

    Realmente, ás vezes lemos cada coisa sem coerência na net que até “broxa” a gente… Rsrs.

    Já deixei de ler muita coisa por isso, fato!
    As vezes as pessoas esquecem que o personagem é um ser com passada, perfil psicológico e etc…
    E é como você disse, quem escreve na net é por que quer ser lido, se não nem publicaria, nem perderia tempo com isso.

    Enfim, parabéns, adorei a matéria!

    Beijos! :kiss:

  8. Mel C disse:

    Nossa é verdade mesmo! Esses furos até fazem o leitor perder o interesse na leitura :bandit:

    Muito bom, chefinha!

    bjs

  9. Duda L. Duda L. disse:

    Nossa…
    foi ótimo você ter abordado esse assunto DH. Há textos que até apresentam uma história interessante, mas pela falta de concordância acabo deixando de lê-los. Pior que isso ainda é a falta de coerência…personagens que parecem ter umas 5 personalidades e coisas que acontecem “do nada”…aí eu não consigo continuar lendo…e acho que não sou a única…
    rsrs

    bjss :lol:

    • Oi, Duda! Fico feliz que tenha gostado :)

      É o caso de respeitar o mínimo de nossa inteligência. Claro que ao lermos algo vamos tentar entender, é inerente. Para se entender, as coisas precisam estar coerentes. Não estando, não há empatia e a gente parte pra outra, mesmo :straight:

      Obrigada pelo comentário :wink:

      Bjs!

  10. Angel Angel disse:

    Muito bem colocado Danieli, as vezes a autora começa a escrever e nem se dá conta disso.
    Tem também aquelas histórias que não conseguimos terminar pois os personagens se tornam desinteressantes.
    Adorei sua colocação… como sempre, ótima coluna…
    Bj…

    • Obrigada, querida! :)

      Pois é. A maioria não se dá conta. Isso acontece muito em histórias que são postadas à medida que a autora vai escrevendo, porque ela não tem como ficar indo e voltando no enredo, analisar o que foi escrito para “tapar” os buracos, arrumar falhas, coisas assim.

      Beijão!

  11. Nell Felix disse:

    Ausência de concordância é a coisa que mais me irrita em textos alheios.

    Good job, bossu.

  12. Kriz Kriz disse:

    Infelizmente, existem muitos textos e personagens que beiram o nonsense de tão descabidos. Outros são redundantes e óbvio lulantes. Moralistas e caretas. Forçados e banais. E por aí vai. Mas para mim o pior de todos os textos é aquele que não tem identidade, personalidade e estilo. Fica entre o vou não vou. É como uma fod… mal dada: nunca chega lá.
    Beijos. :wink:

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