Hipólitas
19 de maio de 2010 por Brunella França
Arquivado em Destaques, O amor que ousa dizer o nome
Nesta segunda-feira (17), comemorou-se o Dia Internacional Contra a Homofobia em diversos paÃses do mundo. No Brasil, o Dia Nacional de Combate à Homofobia foi firmado apenas este ano, via Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, por meio de mobilização da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, a ABGLT, que representa mais de 200 associações de gays no paÃs.
A data 17 de maio marca o dia em que a homossexualidade deixou de ser doença para a Organização Mundial da Saúde, em 1990, um marco para os direitos civis dos homossexuais de todo o mundo. Por isso, peço licença para um texto diferente esta semana…
Chove uma garoa lá fora. Através da janela toda embaçada, alcanço uma árvore no quintal vizinho… E de repente sinto falta da minha janela, do meu quarto original, da qual tenho uma bela vista de folhas de todos os tons de verde e formas. Jambo, macadâmia, cajá e bambu. O dia vai nublando meus olhos enquanto choram uma nostalgia de não sei o que.
Das muralhas do castelo de mim vejo a imensidão do horizonte. Como é grande o caminho em minha mente. O silêncio que não ouço e que não procuro me envolve. Enquanto isso, sigo o voo de uma borboleta amarela pelas roseiras de minha avó materna. São dúzias de rosas vermelhas me sorrindo… Recordo a textura daquelas pétalas tão bem cuidadas.
O tempo leva de mim as estações, deixando saudades. O mesmo tempo anuncia as transformações da natureza, transformando a minha natureza interna em algo melhor. As primeiras folhas ainda tardam em cair das árvores, mas uma prece já se forma no Ãntimo… Aceite-me como eu sou, olhe sempre para meus olhos e veja além de mim.
Ao som ritmado dos pingos de chuva, viajo em meu devaneio. As luzes que o completam estão ao longe no horizonte. Consigo ver para além delas, na aquarela-sonho que carrego, onde um sorriso vale uma vida e uma lágrima um mundo; onde a paixão é vermelha e o amor, azul; onde o sol ilumina o verde do chão pisado; onde a chuva acaba num arco-Ãris.
Insisto em acompanhar a chuva com lágrimas… É uma dor que carrego, é uma mágoa do mundo em que vivo que machuca. Se tudo dependesse de um caminho que a alma me indica… Mas não é assim, o caminho é de outra cor. Cruzamos fronteiras, vencemos os muros? Nem todos… Perseguimos tod@s um ritmo que acabamos por perder. Somos gêni@s, mas agimos de olhos fechados; somos livres, mas sentimos o espaço de nossa prisão. Não é confortável sair de Nárnia…
O vento, agora frio, por vezes não traz boas notÃcias. Do alto do meu pé de cajá, onde deixei uma lembrança da infância pendurada em cada galho, observo a humanidade. Os sorrisos são pequenos, as vontades cinzentas e os corações… Ah! É quando a angústia aperta e me lembro do colorido harmônico do jardim da minha avó. Será minha vontade suficiente para colorir tudo que meus olhos veem? Serão meus braços porto seguro de uma borboleta? Serão meus ouvidos capazes de ouvir a ofensa e meus lábios de oferecerem um sorriso?
Minhas palavras são meu sentido e lá embaixo, na cidade, onde há muitos caminhos, tantos deles sem fim, outros sem sentido, os tons vão do branco ao preto, passando por toda a escala de cinza… Há lugar para o arco-Ãris? Não sei… Mas se não houver, construiremos um.
Porque é preciso sermos mais fortes que o braço de Heitor e o ódio de Posêidon, como aprendemos da CÃtia ao Termodon, na Temiscira, durante a cavalgada heróica. E os arcos coloridos cegarão eternamente o único olho da ignorância e acenderão no seio da humanidade a imagem da coexistência.
Se você sofreu chacota, difamação, discriminação ou agressão fÃsica devido à sexualidade, denuncie à Ouvidoria-Geral da Cidadania: (61) 2025-3116 / 9825 / 3908. O fax é (61) 3321.1565 e o e-mail ouvidoria@sedh.gov.br.
A homofobia é invisÃvel, cotidiana, disseminada e pode matar. Segundo estatÃsticas do Grupo Gay da Bahia (GGB), mais de um homossexual é morto por dia no Brasil.
E você pode lutar contra a homofobia manifestando a sua forma de amar.
Sim, aceito!
A notÃcia chegou a mim via comentário em TLW season 7. Nina, leitora portuguesa do abcLES, informou cheia de orgulho que o presidente de Portugal promulgou o diploma permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo em nossa antiga metrópole, enquanto o Brasil ainda discute a assinatura do Dia Nacional de Combate à Homofobia.
Espero que brasileir@s não precisem esperar 500 anos para se casarem e terem os mesmos direitos que casais hétero. Enquanto no mundo milhares de homossexuais comemoravam o 17 de maio (quando em 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação EstatÃstica Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), oficialmente declarada em 1992), Portugal nos deu uma verdadeira lição de cidadania.
No Brasil, apesar dos pequenos avanços e da mobilização em torno da discussão da homofobia no paÃs, dois projetos apresentados na Câmara dos Deputados, um do deputado evangélico Zequinha Marinho (PSC-PA) e outro do deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), tentam derrubar a decisão do Superior Tribunal de Justiça que reconheceu o direito de adoção dos casais homossexuais.
E a bandeira continua tremulando.
Sugestão de leitura complementar: Será que precisamos ser agressiv@s?, texto de Lúcia Facco publicado no Parada Lésbica (http://paradalesbica.com.br/2010/05/sera-que-precisamos-ser-agressivs/)



ES. 23 anos. Estudante de Jornalismo. Autora abcLES.
Colunas: 








Por mais que a caminhada seja árdua e lenta, ao se olhar para trás se vê que tantas coisas já passaram e tanto caminho já foi percorrido no mundo inteiro.
Infelizmente, um exército caminha tão rápido quanto seu soldado mais lerdo – e o mesmo posse ser dito em relação a qualquer luta em nome de direios humanos e civis, de seja lá qual for a classe e qual for a cor e a sexualidade e o que mais possa ser dividido e que foi segregado por infelicidades culturais.
Parabéns aos portugueses pela vitória. Um dia chegaremos lá também. For now, just soldier on.
Bela coluna, moça.
Nell.
Obrigada pelo carinho Nell!
bjos
Bru
Mesmo que em passos lentos continuamos avançando e aos poucos conquistando direitos que até há um tempo atrás eram impensados.
É importante não pararmos de lutar, de exigir, de nos mostrar.
Belo texto!
Ei Fê! prazer enorme ter você por aqui^^
Enquanto os direitos não forem iguais, não pararemos de lutar. E nem precisa sacar espada, apesar de termos nossa heroÃna lésbica, né?!
PRECISAMOS VIVER O QUE SOMOS! Sem restrições, sem medo do que ‘os outros’ vão pensar.
Não ensinaram que ser homossexual é errado?
Então, vamos ensinar que não é!
beijos linda^^
Bru
BelÃssima coluna como sempre…
As vezes leio coisas que me deixa revoltada, pessoas que se calam, que se escondem, que sofrem pré-conceitos (sempre com essa grafia), que são tratadas como doentes e assim por diante.
Homofobia… pode estar ao nosso lado, tão disfarçado que as vezes nem percebemos…
Parabéns por sua coluna!!!
Angel, obrigada pelo carinho!
Pedi licença para escrever um texto diferente hoje. Qria mto fazer isso, mas mantendo o alerta ligado, sempre.
E pré-conceito, como vc mto bem coloca, se combate com amor sim!
volte sempre ao nosso espaço.
bjos
Bru