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Nem de Vênus, nem de Marte, da Terra mesmo

5 de maio de 2010 por Brunella França  
Arquivado em Destaques, O amor que ousa dizer o nome

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6 comentários


Pensa na seguinte situação: você está sentada no banco da universidade com sua namorada e vem alguém do nada e joga fezes em vocês. Um absurdo? Coisa de outro mundo? Não! Dentro de uma UNIVERSIDADE, no curso de Farmácia da USP, um sujeito intitulado Joãozinho Zé-Ruela desafia colegas de curso a jogarem fezes em homossexuais. E ainda tem prêmio: entrar de graça em uma festa!

Você ficou revoltada ao ler isso? Pois eu fiquei muito! E quando vi a primeira notícia aqui (http://educacao.uol.com.br/ultnot/2010/04/23/jornal-anonimo-de-alunos-da-usp-desafia-universitarios-a-jogar-fezes-em-homossexuais.jhtm), além do repúdio pela notícia em si, logo destaquei outro fato.

O presidente do Centro Acadêmico do curso de Farmácia, Marcelo Akutagawa, diz que a maioria dos alunos entende que o jornal é apenas uma brincadeira e não chegaria a agredir algum estudante. Primeiro ponto: a minoria é IGNORADA! E a minoria somos nós! É claro que a maioria pode achar tudo uma brincadeira, rir, debochar, porque NÃO é com eles.

Peço licença para aspas. “É comum ter homossexuais aqui, todo mundo sabe que tem. Em festas já houve alguns episódios de insultos a homossexuais, mas nada muito forte. Os alunos não têm problemas com homossexualismo (sic), mas sempre vai ter um grupo que é mais homofóbico”, pondera o presidente do CA.

A primeira frase é um marco! Mas notem que o fato de SER COMUM a presença de homossexuais dentro do curso, não É COMUM eles serem aceitos pela maioria. Akutagawa admite casos de homofobia dentro da universidade. E aqui eu me pergunto como ele pode julgar que não é “nada muito forte”? Só quem sabe o quanto dói, o quanto fere, o quanto machuca é quem sofre homofobia.

É válido esclarecer a gradação da homofobia, que vai da chacota, difamação, discriminação, agressão física até o extermínio. A homofobia é invisível, cotidiana e disseminada. Por isso mesmo, deve ser questionada nas atitudes, nos comportamentos, nas ideias, nas imagens e nos argumentos, nas instituições. São formas de inferiorização, de tratamento discriminatório, que resultam da hierarquia de gênero e da sexualidade. A diferença é transformada em desigualdade, negação de direitos e exclusão social. Por isso mesmo não podemos ficar caladas.

A desinformação é tanta que mesmo num curso de Farmácia um universitário ainda usa o termo homossexualismo, abolido desde 1993 pela Organização Mundial da Saúde porque o sufixo ismo está relacionado à ideia de doença.

Outra questão que quero abordar com vocês aqui é a invisibilidade. Sim porque se o próprio presidente do CA admitiu a existência de homossexuais, por que nenhum aluno homossexual foi ouvido para dizer o que pensa, o que sente, como enfrenta essa situação deplorável? As minorias não têm voz? Não é importante ouvir os lados envolvidos no fato? Por que não aparecemos? Minoria sim, invisíveis não!

Como alguém pode rir de uma coisa assim? Como achar graça da intolerância, da agressão gratuita? Como se divertir com a humilhação alheia? Por que disseminar algo tão nocivo como é o preconceito? É ridículo observar que NINGUÉM PARA E PERGUNTA COMO A GENTE SE SENTE!

Há uma pequena cena no filme I can’t think straight e uma fala da personagem Tala que acho interessante colocar aqui. Ela pergunta à Leyla por que a jovem é muçulmana. A mãe de Tala responde que é porque a outra NASCEU assim. Ao que Tala replica que não, que Leyla nasceu um ser humano, no máximo mulher. Eu diria até que o correto é dizer: do gênero feminino.

Sabemos que antes de nos descobrirmos enquanto lésbicas e gays, somos socialmente formatad@s como mulheres e homens. Somos criad@s como membr@s de uma sociedade de e com gênero; uma sociedade na qual a divisão masculino/feminino é apresentada como simétrica e complementar. Mas, na realidade, onde se perpetuam assimetrias e desigualdades.

Há quem prefira o termo heterossexista para classificar a sociedade em que vivemos (mais uma palavra para nossa sopa de letrinhas!). Explicando: o heterossexismo descreve uma atitude mental que primeiro categoriza para depois injustamente etiquetar como inferior todo um conjunto de pessoas, é a tentativa de dar à heterossexualidade um estatuto superior ou de afirmá-la como a forma de sexualidade normativa. E isso, meninas, constitui grave violação aos direitos humanos.

O que vou dizer aqui pode soar radical, mas se alguém tem problemas em conviver comigo por conta da minha sexualidade, o problema NÃO é meu. É de quem tem o preconceito. Admito que isso se deve a um longo processo de internalização de noções negativas da sociedade por meio de religiões, ciência, do Direito e da mídia, face à homossexualidade. E cabe sim a cada pessoa lutar para superar isso. E a nós a ensinarmos.

Homossexuais não são fabricados em laboratório, não vieram de uma nave espacial. Nascemos da mesma forma que os outros, temos pai e mãe sim, ainda que na maioria das vezes esses pais e mães tenham problemas em nos enxergar como seus filhos por sermos diferentes.

E o que tudo isso tem a ver com o movimento LGBT? Bem, é preciso lembrar sempre que a homofobia impede a aceitação da diversidade, do que não pertence ao grupo dominante. Por isso, quando alguém de nós é discriminad@, tod@s nós somos afetad@s.

Homossexualidade não é doença, não é crime, não é antinatural. É manifestação de AMOR! E o amor é grande, amplia horizontes. Tem muita gente por aí que enche a boca para falar da santidade do amor. Pois eu digo que o amor é sagrado por definição. Não apenas o amor entre ALGUMAS pessoas. Mas TODAS as formas de amor entre TODAS as pessoas.

Brunella França

ES. 23 anos. Estudante de Jornalismo. Autora abcLES. Colunas: Ménage à Quatre, O amor que ousa dizer o nome. [Perfil]

 

 

Comentários

6 comentários para “Nem de Vênus, nem de Marte, da Terra mesmo”
  1. Chunli disse:

    Bravo! É isso aí!

    Eu também acho que antes de sermos brancos, negros, amarelos, gays ou lésbicas, somos todos HUMANOS. Sabe, isso é o mais importante…

    Creio que todos deveriam, por um segundo, antes de escarnecer alguém, pensar que o outro é um ser humano exatamente igual a você… Todos respiramos, comemos,amamos…

    E isso vale para qualquer tipo de situação… Regra de ouro… u_u

  2. Angel Angel disse:

    O caso da USP foi revoltante, qts mais passam por situações constrangedoras e se calam?
    E você está certíssima em dizer “… mas se alguém tem problemas em conviver comigo por conta da minha sexualidade, o problema NÃO é meu. É de quem tem o preconceito.”…
    Belo tema levantado…
    Parabéns…

  3. Sara Sara disse:

    Brunella!

    Encantadíssima com o texto. Não tenha medo de falar algo que possa chocar, viu? É impossível agradar todo mundo mesmo. Um beijo e parabéns pela coluna!

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