O amor que ousa dizer o nome: A novela do beijo gay na teledramaturgia brasileira
25 de agosto de 2011 por Brunella França
Arquivado em Colunas, Destaques, O amor que ousa dizer o nome
“Me dê um beijo meu amor Eles estão nos esperando”*
Na última sexta-feira (19), milhares de brasileir@s assistiram ao último capítulo da novela da Rede Globo de Televisão, Insensato Coração. Seguindo a “tendência” das produções novelísticas da emissora, o folhetim tinha homossexuais entre suas personagens. Pela primeira vez em uma produção global, constituiu-se um “núcleo gay”.
Diversos temas relacionados à comunidade LGBT foram abordados pelo autor, Gilberto Braga: saída do armário, aceitação em família, homofobia, violência cometida por pitboys contra LGBTs, união estável homoafetiva. Mas a relação REAL de carinho, amor e cumplicidade que existe nas relações homoafetiva ficou bem distante do horário nobre da televisão nacional.
A dramaturgia brasileira está cada vez mais colorida. Não importa a emissora, é difícil uma novela ou seriado produzidos no Brasil que não tenham um personagem gay. Mas da caricatura para a realidade, ainda há um longo caminho a percorrer.
Hoje, nenhum outro tabu na TV brasileira é tão grande quanto o “beijo gay”. O primeiro beijo entre um casal homossexual exibido na TV aberta brasileira foi ao ar na noite de 12 de maio, na novela do SBT Amor e Revolução, que se passa no período da ditadura militar. O beijo aconteceu exatamente uma semana depois que o Supremo Tribunal Federal julgou o reconhecimento da união estável homoafetiva.
Ninguém morreu, ninguém ficou doente, a população ignorante/intolerante/religiosa do Brasil não parou o País em passeata contra a cena. Mas o “beijo gay” está longe de se popularizar nas produções televisivas brasileiras.
Em carta endereçada à Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) – e divulgada na imprensa em fevereiro deste ano –, o diretor da Central Globo de Comunicação, Luís Erlanger, explicou que não é de interesse da emissora mostrar o beijo gay. “A teledramaturgia, diferentemente das questões éticas e sociais, não é o ambiente adequado para levantar bandeiras de comportamento moral no campo da sexualidade, baseada na individualidade. Televisão é o espaço do coletivo”, afirmou.
Uma questão de marketing
As TVs abertas fogem de situações de confronto em suas novelas e seriados preocupadas com a chamada “classificação indicativa”, do Ministério Público Federal. Mas nunca houve uma proibição explícita. A “classificação” basicamente diz o que pode aparecer ou não numa novela e nem sempre é clara.
A verdade é que as emissoras se escondem atrás dessa “classificação”, a mesma que libera cenas de sexo entre heterossexuais, nudez, violência e tantas outras coisas que estão de acordo com a heteronormatividade. As emissoras ainda se pautam pelo preconceito e são corriqueiros os equívocos que ocorrem quando precisam lidar com as diferenças sexuais na TV.
Ao observarmos a programação humorística, os telejornais e as novelas, é fácil identificar que a televisão brasileira acaba transmitindo valores negativos, depreciativos e caricatos no que se refere aos LGBTs. Enquanto a mídia contribuir com a formação de estereótipos, com a ridicularização e a banalização das pessoas LGBTs, a sociedade permanecerá distante daquilo que queremos: o encontro com a verdade, a discussão aberta, o diálogo, o reconhecimento público das diferenças que existem e existirão, e que devem ser respeitadas.
Viramos uma questão de marketing! Não é à toa que os produtos televisivos aceitam cada vez mais personagens LGBTs. Estamos na pauta mundial. Até mesmo o Conselho para os Direitos Humanos da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) emitiu um documento sobre a questão da homofobia e da violência contra LGBTs no mundo.
Nesse contexto, é óbvio que uma produção televisa que tenha personagens homoafetivos desperte interesse no público, aumente a audiência e crie expectativas. Essa expectativa gera mídia espontânea (diversas revistas produzem matérias especulativas quanto às “personagens gays” da novela/seriado) e também um forte marketing viral: o “beijo gay” é o assunto do momento.
As personagens homoafetivas só existem nas produções da TV brasileira não porque as emissoras estejam preocupadas com a causa LGBT, porque acham que é certo defender os direitos de tant@s brasileir@s que encaram um preconceito cotidiano ou porque são engajadas na causa. Nada disso. Personagens LGBTs em novelas e seriados brasileiros existem porque aumentam audiência e conferem ao produto um simulacro de “politicamente correto”.
Se observarmos com atenção, porém, fica fácil constatar que essas produções vendem a imagem que a heteronormatividade quer. Ou seja, só podemos existir na sociedade se nos comportarmos de acordo com as liberdades gentilmente a nós cedidas pela maioria hétero. Não podemos expressar o nosso amor da mesma forma que os demais porque incomodamos. @s héteros não estão preparados para “encarar” a nossa afetividade. Um beijo entre dois homens ou duas mulheres é um absurdo para a tradicional família brasileira. Cenas de sexo entre héteros não.
Uma pesquisa divulgada no início deste mês pelo Instituto Datafolha aponta que beijo gay na TV incomoda a 60% dos brasileiros. E os mais preconceituosos são os homens: 67% reprovam. De modo geral, 45% dos homens disseram se incomodar ao ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando. Entre as mulheres, 41% têm a mesma rejeição.
A pesquisa também levantou sobre filho homossexual. Os homens são os que mais repelem: 60%. 53% das mulheres disseram que se sentiriam incomodadas, e 47% afirmaram não ver problema algum.
As emissoras brasileiras ainda precisam aprender que nem todo gay é afeminado, nem todos são travestis, nem todos gostam de usar roupas que beiram o absurdo, e mesmo assim todos esses devem ser igualmente respeitados. E o respeito só vem com o reconhecimento, e este só será possível quando a mídia abrir mão do espetáculo em nome da dignidade de nada menos que 19 milhões de brasileir@s.
Não se iludam! As emissoras de televisão do Brasil são um recorte da sociedade. Ou seja: produtoras/reprodutoras do discurso heteronormativo. LGBTs só continuarão sendo personagens da teledramaturgia enquanto ajudarem a aumentar a audiência do produto. E a novela do “beijo gay” ainda está bem distante do capítulo final.
Os beijos gays que não aconteceram na TV Globo
1- Os fãs de ‘Mulheres Apaixonadas’ tiveram que esperar até o último capítulo para ver o prometido beijo entre Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), mas a decepção com a cena foi grande. Foi exibido um selinho, que gerou dúvida quanto à real existência. Questionou-se a veracidade, visto que as bocas das atrizes pareceram não terem se encontrado.
2- Em ‘A Próxima’ Vítima, o casal Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) mantiveram a relação às escondidas por um bom tempo com medo da reação dos familiares. Com o tempo, eles driblaram o preconceito e os ciúmes, terminando a trama juntos. Em 1995, ano de exibição da trama, o assunto ainda era um grande tabu e exibir um beijo entre eles estava fora de cogitação.
3- Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) se apaixonaram e mantiveram o relacionamento em ‘América’. A cena de beijo entre os rapazes chegou a ser gravada, mas a Globo optou por não exibi-la.
4- Rodrigo (Carlos Casagrande) e Tiago (Sérgio Abreu) formavam um casal bem-resolvido em ‘Paraíso Tropical’. Os rapazes sequer demonstravam serem gays, embora não fizessem questão de esconder que viviam juntos.
5- O casal Jennifer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie) movimentou ‘Senhora do Destino’, mas o beijo entre as moças, que moravam juntas na novela, nunca aconteceu.
6- O casal Julinho (André Arteche) e Thales (Armando Babaioff) se formou na reta final de ‘Ti-ti-ti’. O cabeleireiro superou a morte de Osmar (Gustavo Leão) e se permitiu namorar com o surfista, que viveu em crise por conta de sua sexualidade. Após alguns conflitos, eles se acertaram e terminaram a trama juntos, mas o beijo nunca aconteceu.
7- Julinho (André Arteche) e Osmar (Gustavo Leão) conquistaram os fãs de ‘Ti-ti-ti’. A bonita relação dos personagens fez o público torcer pela felicidade do casal, interrompida pela morte de Osmar ainda no início da trama.
8- O amor entre Bernardinho (Thiago Mendonça) e Carlão (Lugui Palhares) foi algo nunca bem explicado em ‘Duas Caras’. Sabia-se que o fortão era um oportunista, explorou-se o sentimento do cozinheiro pelo rapaz, mas cenas de afeto entre eles não entraram nos capítulos.
Com informações do Blog do Nassif: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-beijos-gays-que-nao-aconteceram-na-tv
*Caetano Veloso, É proibido proibir.



ES. Jornalista. Autora ABCLes.
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Adorei o artigo…
Não me sinto mais só nessa indignação pela mídia em relação a envolvimento homoafetivo.
Muito já me disseram “ah, pelos menos estão mostrando, já é alguma coisa”… Discordo, afinal, mostram como você mesma diz o que “é aceito pela sociedade” e olhe lá, por quê é muito legal ver um travesti na novela todo cheio de pompa, muito legal vem um gay afeminado, e por aí vai… Mas ninguém quer mostrar um casal homossexual por exemplo, deitadinho no sofá, um no colo do outro, conversando alguma banalidade, demonstrando o carinho de um pelo outro e consequentemente rolar um beijo (de verdade)” mas ngm se importa se essa cena rolar entre um casal heterossexual…
Ai, fico muito insatisfeita com essa “hipocrisia” toda e pior ainda, fico mais insatisfeita ainda, com quem diz que está satisfeito com os personagens homossexuais na tv….
Beijos linda, você arrasa sempre!!!
=)
Obrigada pelo carinho!
Sabe, eu também fico muito indignada com as pessoas, mesmo as LGBTs, que elogiam a forma como as relações homoafetivas são mostradas na televisão brasileira. É ser muito hipócrita ou cego achar que “pelo menos estão mostrando a gente”. Isso é conformismo, se contentar com migalhas.
É ridículo o descaso, os discursos “cheios de dedos” de autores justificando a ausência do carinho, do afeto, do contato, do cotidiano e do beijo entre casais homossexuais na TV.
O beijo não é “só um detalhe”. Se fosse, por que há tantas cenas de beijo/sexo hétero nas produções? A rede Globo está de parabéns pelo “núcleo gay” em Insensato coração? NÃO! Mil vezes não!
Quero ver dois homens passeando de mãos dadas, um casal de mulheres comemorando o nascimento do primeiro filho nos últimos capítulos, uma mocinha que tem dúvidas se quer ficar com o galã ou com a melhor amiga. Porque é isso que acontece todos os dias na vida real. E a TV não mostra. Acontece que a sociedade não tem como mudar de canal!
Beijos