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O amor que ousa dizer o nome: Amar como se não houvesse amanhã

22 de setembro de 2010 por Brunella França  
Arquivado em Colunas, Destaques, O amor que ousa dizer o nome

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“Aquela garotinha de cabelos cacheados e riso fácil morreu e foi você quem a matou”, ela gritou por desespero e por desabafo a uma mãe alterada, incapaz de vê-la adulta, dona do próprio destino, dos próprios sonhos e desejos.

Uma dor lancinante, aguda e fria transpassou-lhe o peito. Os joelhos dobraram, mas ela se recusou a cair. Sabia que a dor não durava para sempre. Ou até durava, mas depois perdia a intensidade, virava melancolia até ir doer na memória apenas. Nada que boas doses de vodka não pudessem curar.

Mas aquele era o momento de doer e sentir a dor. Era o momento de ver aquele flashback de momentos felizes, de cachos ao vento, de ovos de páscoa, de dias das crianças com muitas caixas coloridas, de noites de Santa Luzia com expectativa de surpresa, de natais com Papai Noel.

Ela se lembrou de todos os prêmios que ganhou na escola, de todas as vezes que só tirou 10 nas provas, de como se esforçou para ser a garota perfeita. Até que se perdeu de si e não sabia mais quem era. E o caminho de volta para si mesma doeu.

Quantas noites chorou sozinha, baixinho, com medo de acordar alguém? Quantas vezes quis fazer uma pergunta e não tinha ninguém para ouvir? Quantas vezes o medo em seus olhos foi visto como petulância? Quantas vezes ouviu sua mãe dizer que sabia exatamente o que ela estava pensando, quando tudo que ela emitia era um pedido de socorro?

Doeu. Ainda dói. Mas ela cresceu. Sozinha, fechada em si. Viveu todos os dilemas sem contar com ninguém para ajudá-la, para orientá-la. E não foi por falta de tentar. Mas chegou um ponto em que ela desistiu. Abandonou uma relação que se perdeu em alguma esquina do passado. Ela cresceu e não se parecia em quase nada com sua mãe. A não ser pela teimosia. Ela amadureceu.

Não foi fácil se olhar no espelho. Não foi fácil ver quem ela era, tão diferente da garota perfeita, tão cheia de falhas, tão distante da filha querida. Mas ela decidiu viver conforme sua essência, mesmo que tivesse um preço a pagar por isso. Só não sabia que era tão alto. Mas não queria ser amada por aquilo que ela não era.

Muitos sorrisos que conhecia se apagaram. O que antes era tolerância, virou revolta, incompreensão explícita, verbal, mordaz. E ela ouviu calada. Ela sofreu calada. Ela viveu calada. Até que transbordou.

– Eu não sei, minha filha, quando foi que você se perdeu. A sua convivência com essas pessoas que não vão à igreja levou você para esse caminho. Eu não entendo, filha…

– Chega! – olhar duro, voz ferida. – Eu não vou ouvir mais nada. Agora sou eu quem vai falar.

A mãe se assustou. Não estava acostumada a escutar a menina, sempre em silêncio, enquanto destilava sua ladainha de motivos, tergiversando sobre o comportamento dela, o jeito dela, as escolhas dela.

– Você me julga sem me conhecer, sem nunca ter me perguntado nada a meu respeito. Você não sabe o que eu sinto.

– Eu te conheço mais do que você pensa, menina.

– Ah é? Então me diz qual é o maior sonho da minha vida.

Silêncio.

– Qual a minha cor preferida?

Silêncio.

– Qual é o livro que mais me marcou?

Silêncio.

– O que eu mais amo fazer?

Silêncio.

– Você não conhece a minha essência. E desde que eu nasci, tentou me fazer uma cópia de você. Quis que eu fosse alguém que você sonhou em ser. Mas eu tenho os meus próprios sonhos. Eu tenho as minhas verdades. Nós não acreditamos nas mesmas coisas. Você não sabe o quanto doeu me descobrir perdida e eu não tinha ninguém para conversar. Você não sabe o quanto doeu me saber diferente e eu não tinha um colo para aonde correr. Mas eu cresci, sem você. E eu me encontrei.

Incrédula, a mãe olhava a jovem. Segura como nunca a vira antes, dona de si. Algumas lágrimas lhe escorriam na face. De repente, ela se deu conta de que não conhecia a garota a sua frente.

– Me chame do que você quiser. Eu sou mesmo uma menina perdida. Mas eu me encontrei, plenamente, nos braços de uma outra menina perdida, como eu. E você goste ou não, aprove ou não, eu vou viver isso até o fim. E se não for com ela que passarei o resto da vida, eu vou continuar procurando alguém. E eu não preciso que você me ame. Eu quis isso, eu quis muito isso, mas se eu tiver que deixar de ser eu pra ser amada por você, muito obrigada, mas pode ficar com seu amor. Eu nunca serei a garota perfeita.

– Você mudou tanto… Eu tenho tanta saudade da minha menina de cabelos cacheados e riso tão doce…

– Aquela garotinha de cabelos cacheados e riso fácil morreu e foi você quem a matou! – gritou silenciando a mãe, a casa, a relação.

Uma dor muda em ambos os olhos, um choro sem lágrimas em ambas as faces. De olhos fechados, a garota pôde ouvir o vidro se estilhaçando dentro de si. Estava acabado. Dali em diante, seguiria como sempre, sozinha.

“Minha mãe sempre quis que eu me casasse e tivesse filhos. Eu disse a ela que eu sempre seria grata pelo modo que me criou, mas ela não podia esperar que eu pagasse isso com o meu futuro”, Gabrielle em Xena Warrior Princess.

Ninguém disse que seria fácil. Ninguém disse que não haveria lágrimas ou que não fosse doer. Vocês devem ter percebido o tom diferente da coluna desta semana. Só espero que o meu exemplo possa servir para que outras meninas não precisem passar por isso.

E para que pais e mães de gays e lésbicas olhem além do que a sociedade ensinou, para que vejam que ali está sua filha ou seu filho, exatamente como ela ou ele deveria ser; que sua filha ou seu filho não é diferente por ser homossexual e carrega os mesmos valores e ideais que sempre carregou. E cabe a nós educá-l@s para essa nova visão de mundo.

Sinceramente, acredito que a relação pais/mães e filh@s só exista com um único propósito: fazer com que tod@s @s envolvid@s cresçam enquanto seres humanos e aprendam que acima de tudo está o amor, incondicional e livre de rótulos.

Brunella França

ES. 23 anos. Estudante de Jornalismo. Autora abcLES. Colunas: Ménage à Quatre, O amor que ousa dizer o nome. [Perfil]

 

 

Comentários

12 comentários para “O amor que ousa dizer o nome: Amar como se não houvesse amanhã”
  1. Tha_Alves Tha_Alves disse:

    Estou completamente despida diante desse artigo…silêncio. Como essa garotinha de cabelos cacheados parece comigo. Assim como ela fui criada para ser perfeita; a filha perfeita;irmã perfeita; neta perfeita; sobrinha perfeita; amiga perfeita; namorada perfeita; deveria encontrar um bom homem e me casar e ter vários filhos; mas chegou o dia que cansei de fingir que era essa garota perfeita, descobrir que ser duas pessoas uma para mim e outra para as pessoas exigia muita ‘energia’ do meu ‘EU’. Hoje ainda sou sozinha, amo a solidão, mas agora sou apenas eu para mim e para as pessoas, principalmente para minha mãe.

    Belas palavras Brunella.

    • Tha, obrigada pelo seu depoimento. E eu entendo as suas palavras completamente. Eu também tentei um sem número de vezes ser a garota perfeita. Até que entendi que eu jamais poderia ser alguém que não eu mesma. Ser exige muita coragem e pode sim trazer muita dor.
      Mas não há dor maior do que não ser!
      Beijos

  2. aPluz aPluz disse:

    Bru, obrigada por compartilhar conosco seus sentimentos mais profundos. Tenho certeza que estará não somente ajudando a si mesma a superar uma dor tao intensa quanto fortalecendo tambem outras garotas q possam estar passando por situações semelhantes. Vc é uma garota brilhante e sua sabedoria aliada a seu coracao generoso sempre irão lhe guiar para bons ventos. Parabens mais uma vez! um bj :)

  3. cristiane macedo disse:

    OI BRUNELLA, EU AINDA NÃO ME ASSUMI , MAS TENHO PENSADO MUITO NISSO, TO COM UMA PESSOA A POUCO TEMPO E ELA ME FAZ MUITO FELIZ, ELA TAMBEM NÃO ASSUMIU MAS SINTO QUE NÕ TERA COMO ESCONDER POR MUITO TEMPO. . . .
    TENHO UMA GRANDE ADMIRAÇÃO POR QUEM TEM A CORAGEM DE SE ASSUMIR PERANTE A FAMILIA . . .
    NÃO SEI COMO SERÁ REAÇÃO DA MINHA MÃE , ESPERO QUE ELA ME ENTENDA . . .
    UM BEIJO E FORÇA SEMPRE PRA TODAS NÓS!!!!! :D

    • Cristiane, se a sua relação com a sua família já for boa, as chances de a aceitação vir depois do choque é grande. Mas se não for, paciência. Eu sei que é difícil ouvir tanto, dói muito.
      Mas depende de você ensiná-los que você é a mesma filha que eles amavam. E que a sua felicidade está ao lado de uma moça, não de um rapaz.
      Torço, muito, para que as coisas saiam muito bem para você.
      beijos

  4. Ale disse:

    Bru,

    Adorei seu post! Infelizmente ainda existem pessoas que não conseguem romper a barreira da religião e da família e eu acabei de perder o meu amor por isso…

    Espero que cada dia menos homossexuais tenham que passar por essa situação, desistir da vida por preconceito e por ignorância.

    Acredito que, se Ele existe, nos criou para sermos felizes, com todas as nossas escolhas.

    Bjos e boa sorte a todas!!

  5. Lole_Abreu disse:

    Bru amiga, simplesmente me li em seu artigo… Passei por uma situação que só não é idêntica pelo fato de que sempre tive um gênio muito forte e não aguentei as críticas dos meus pais calada. Realmente doi, doi muitoooooooo. É uma dor que você acha que nunca vai passar, porque são as pessoas que você mais ama na vida e que lhe viram as costas. Foi muito duro me assumir em casa… Já fazem 5 anos, mas ainda existem momentos que eu choro sozinha em meu quarto =/

    Apesar das “aparências” e do “acordo silêncioso” algo quebrou sabe? Já ouvi altas coisas dos meus pais… coisas do tipo “prefiro uma filha P***, ladra e drogada do que ter uma filha lésbica” e daí para pior…

    Admiro sua coragem amiga e te apoio =) Não podemos viver de mentiras apenas para agradar…

    Saiba que sempre que precisar estarei aqui para te dar forças tá? =D

    Super beijooooo e bons ventos para nós ^^

  6. Ká disse:

    Brunella,

    Só tenho que congratular vc pelo gesto de generosidade e desprendimento de sua privacidade, para alertar aos leitores de sua coluna quanto à necessidade de agirmos em defesa de nossas próprias essências, do querer de nosso “eu”.

    Também passei por isso há alguns anos, e vi a minha relação com minha mãe ir às vias da intervenção policial, em função das ameaças físicas e morais que ela fizera a mim e à minha parceira, na época. Não foram poucas as vezes em que meu rosto foi estapeado pelo que sou, mas eu não desisti. Chegou um dia em que, simplesmente, coloquei a mochila nas costas e pude abrir minhas asas e voar.

    Hoje estou aqui, com os olhos marejados por sua história, mas ao mesmo tempo, feliz por saber que vc tb não desistiu. Quero que saiba de todo o meu apoio, para o que precisar, nessa luta pelo amor.

    Vc é uma grande mulher!

    Um beijo.

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