Seguir:

O amor que ousa dizer o nome: Educar para a diversidade

25 de maio de 2011 por Brunella França  
Arquivado em Colunas, Destaques, O amor que ousa dizer o nome

1.522 leituras
2 comentários

Era para ser um domingo qualquer, desses típicos de outono, com sol ameno e risco de chuva a qualquer momento. Mas algumas horas em companhia da pequena Julia, 5 anos, fizeram com que eu renovasse a minha fé nas pessoas e acreditasse mais e novamente que podemos sim construir um mundo melhor.

- Bru, conta uma história? – ela chega e logo se senta ao meu lado, na minha cama.

- Uma história? – largo no criado mudo o livro que lia.

- É! Uma historinha – sorri e se deita no meu colo.

- Hum… Mas historinha de quê, Ju?

- É que eu trouxe um livrinho da escola, mas ainda não sei ler tudo… – olha-me com aqueles olhos do Gato de Botas de Shrek. Sorrio.

- Onde está o livrinho?

- Aqui – mais que depressa, ela retira debaixo do vestido um livro pequeno e colorido.

“A história da Zebrinha triste”. Resumo: uma zebra tem as listras horizontais ao invés de verticais e ela não consegue fazer amizade com outras zebras por causa disso. Sem amigos, a zebrinha era triste porque não tinha com quem brincar.

- Bru, por que as outras zebrinhas não gostam dela?

- Ju, olha aqui no livro. Qual a diferença entre a zebrinha e as outras?

Minha pequena fica analisando a imagem que lhe mostro no livro. E pensa muito antes de responder.

- As listras das zebras são em pé e as da zebrinha são deitadas.

- Então, é por isso que as outras zebras não são amigas da zebrinha.

- Mas… – Julia me olha interrogativa e com um semblante sério. Ela parece não compreender bem aquilo tudo.

- Que foi?

- É que… não tá certo isso, Bru.

- O que não tá certo?

- As outras zebras não serem amigas da zebrinha. O que é que tem se as listras dela são deitadas? Ela não deixa de ser zebra por isso. Só que tem as listrinhas diferentes. Só isso!

O raciocínio de Julia me emocionou. Com uma simples historinha, ela simplificou algo que tantos insistem em não entender. Não é por que somos gays, lésbicas, travestis, transexuais ou trangêner@s que deixamos de ser humanos. Diferentes sim, mas, sobretudo, seres humanos.

Essa “historinha” com a Julia me fez pensar (um pouco mais) sobre o kit anti-homofobia distribuído pelo Ministério da Educação. Há parlamentares em todos os níveis (federal, estadual e municipal) tentando impedir que o Projeto Escola Sem Homofobia seja de fato implementado, desqualificando o material didático como “kit gay”.

O kit é composto de três tipos de materiais: o caderno do educador, seis boletins para os estudantes e cinco vídeos, dos quais três já estão em circulação na internet. Os vídeos que compõe o kit “Escola sem homofobia” são histórias fictícias que abordam situações cotidianas – três delas em ambiente escolar – relacionadas à diversidade sexual. Quando retratados, os casais homossexuais são de idade parecida com a dos estudantes de ensino médio e aparecem no máximo de mãos dadas.

É importante observarmos que o Projeto surgiu de uma demanda real de professores que não sabem como lidar com questões relativas à sexualidade e à identidade de gênero dentro das salas de aula. Milhares de estudantes já foram e são diariamente discriminados por serem homossexuais.

A mobilização de setores fundamentalistas e conservadores da sociedade (liderados pelas mesmas figuras de sempre, ou seja, padres, pastores e religiosos parlamentares) distorce o valor real da construção de uma escola sem homofobia para tod@s.

Uma pesquisa divulgada em Nova Iorque, em 18 de abril deste ano, indica que o número de jovens homossexuais que se suicidam é cinco vezes maior que o número de jovens heterossexuais. Consequência de uma sociedade na qual heterossexualidade é considerada uma experiência obrigatória, natural, saudável e louvável, enquanto a homossexualidade é considerada desvio ou anormalidade.

Aqui, é válido ressaltar que a personalidade de cada pessoa é construída a partir da relação com @ outr@, necessariamente a partir de um ideal, que em nossa sociedade é o ideal heterossexual. Todas as referências positivas fazem parte da identidade heterossexual, enquanto todos os referenciais negativos são relegados à homossexualidade.

A proposta do MEC é formar cidadãos e cidadãs capazes de reconhecer e proteger a diversidade como um bem do nosso país. Mas, bem sabemos, quando há alguma proposta de positivar a homossexualidade, surge também a acusação de promover a experiência homo (como se a exigência simbólica da heterossexualidade não matasse tanta gente). Ainda assim, essa exigência é promovida na mídia, nas escolas, nas religiões e na família.

É bom lembrar que a escola é um espaço rico de interação e construção de saberes e atitudes. E por ser um lugar onde problemas como a homofobia se insinuam, respondendo aos estímulos do ambiente social, a escola pode e deve se constituir como um espaço privilegiado de reflexão.

A homofobia é diária e não está tão bem escondida assim. Quantos programas de humor ridicularizam o comportamento homossexual? Quantas pessoas contam piadas em que @ homossexual surge como figura ridícula ou desqualificada? Em quantas instituições nós podemos nos apresentar como tais e falar de pequenos acontecimentos da vida pessoal, sem que sejamos vítimas de olhares tortos?

Combater a homofobia educando para a diferença beneficia não apenas estudantes lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, mas TOD@S que diariamente vêm sendo formad@s para uma cultura do ódio, da discriminação e da violência com @s que se apresentam como diferentes.

Para assistir aos vídeos, clique nos links a seguir.

Torpedo: http://www.youtube.com/watch?v=hKJjOJlEw_U

Encontrando Bianca: http://www.youtube.com/watch?v=A_0g9BEPVEA

Probabilidade: http://www.youtube.com/watch?v=tKFzCaD7L1U

 

Comentários

2 comentários para “O amor que ousa dizer o nome: Educar para a diversidade”
  1. Pry John disse:

    Ei Brunella… outro texto maravilhoso!!!
    Uma das maiores alegrias da minha vida é trabalhar com crianças:p !!! Sou professora de educação infantil, trabalho com crianças pequenas, em geral de 6 e 5 anos (às vezes eles tem até menos idade), e devo dizer que é incrivel conviver com eles. Crianças não tem preconceitos. O amor deles é o mais sincero. Não se importam se seus amigos são meninas ou meninas, negros ou brancos, grandes ou pequenos. O que importa para eles é a alegria e a satisfação que a amizade e as brincadeiras podem causar.
    Não importa a tristeza, raiva ou qualquer outro sentimento ruim que eu esteja sentindo. Basta entrar na sala e ouvir um “Oi Prô!” que tudo melhora. Eles me transmitem paz, amor, carinho e diversos outros sentimentos bons, que, infelizmente, a maioria dos adultos estão privados;-( .
    A história que você citou é apenas uma das várias que eles ouvem e adoram.
    Digo e repito: com os adultos eu aprendi a ser “grande”:sick: , mas com as crianças eu aprendi a ser humana:love: .
    Lamento que o MEC, a (maldita) bancada evangélica e a própria Dilma estejam lutando contra o lançamento do material, que seria de grande valia para nossos jovens. É a vitória do falso moralismo.
    Um grande beijo e continue com o excelente trabalho.
    Beijos, Pry :kiss:

    • Pry, preciso ainda fazer uma análise sobre essa “palhaçada”.
      Não esperava que a presidenta Dilma fosse tomar uma postura tão arbitrária.
      Mas… o que não se faz para salvar o governo de um escândalo, não é?

      Mas o que importa mesmo nisso tudo, é que estamos cada vez mais na mídia. Deixamos de ser invisíveis, os excluídos que gritam de longe. Não. Estamos dentro da sociedade, do governo e gritamos para muitos ouvirem.

      Beijos!

Comente

Deixe-nos saber o que achou do artigo...

Você precisa estar logada em sua conta para postar comentários.


Quem Somos | Imprensa | Contato | Anuncie | Arquivo

Destaques | Colunas | Histórias | Enfoque Cultural | Movimento | Chat | Rede