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O amor que ousa dizer o nome: Elas por Elas

17 de agosto de 2011 por Brunella França  
Arquivado em Colunas, Destaques, O amor que ousa dizer o nome

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E são tantas as histórias para contar, tantas, até demais, um excesso de vidas, acontecimentos, milagres, lugares e boatos entrelaçados, uma mistura tão densa do improvável e do mundano…” (Salman Rushdie, Os filhos da Meia Noite).

O problema histórico de se escrever, ou contar, uma única história sempre, repetidamente, é que incutimos na cabeça das pessoas a ideia de que aquela é a única verdade. Essa observação, feita pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie, pode ser observada na história da literatura feita por mulheres.

Durante muito tempo, as mulheres não produziam textos literários ou jornalísticos. Aliás, elas não precisavam sequer saber ler. Tocar piano, bordar e abrir as pernas para gerar filhos para os maridos era o que se esperava de uma “boa esposa”.

No entanto, as mulheres, embora não tivessem voz, não tinham sua existência negada. Elas, apesar de ocuparem o espaço privado e permanecerem confinadas em casa, eram vistas como seres sociais. O mesmo não ocorreu com os homossexuais.

Durante séculos, fomos invisíveis para a sociedade. Até hoje, a literatura ainda é predominantemente heterossexual, pois a esmagadora maioria de textos produzidos traz a voz heterossexual. Isso não é uma crítica, apenas uma constatação.

Aqui é importante esclarecer que a Literatura gay ou homoafetiva não constitui um gênero diferente de literatura, mas abarca todos os grandes gêneros (narrativa, poesia, teatro, ensaio) e subgêneros. Trata-se antes de um ramo da literatura, uma classificação de um subconjunto de obras literárias.

As expressões “literatura homoafetiva” ou “literatura gay” estão diretamente associadas a algo muito mais recente: o movimento de emancipação política da comunidade LGBT que ocorreu no fim dos anos 60 – cujos reflexos podem ser sentidos hoje em uma série de “ações afirmativas” que incluem a criação de  espaços de convivência cada vez mais numerosos; um mercado de produtos gay; manifestações públicas LGBT; e, ainda que de forma tímida, a publicação de obras literárias.

Nesse contexto, a classificação “literatura gay” ou “homoafetiva” é um subconjunto da literatura com conteúdos de temática LGBT ou, definição também usualmente aceita, escrita por autores LGBTs. E é importante e relevante porque se debruça sobre temáticas únicas (particulares a um subconjunto da humanidade com uma dimensão não desprezível) e porque tem um papel relevante na literatura ocidental moderna.

Afinal, a literatura é, possivelmente, uma das formas artísticas mais adequadas à descrição da complexidade e sutileza da sensibilidade LGBT, tendo sido largamente utilizada ao longo da história para partilhar sentimentos, muitas vezes de forma codificada, que de outra maneira seria muito difícil, ou mesmo proibido, expressar.

Assim que uma história passa a ser publicada (impressa ou na internet), ela se torna uma mensagem, criando assim um processo comunicativo. E dentro do universo da “literatura homoafetiva”, merece destaque o trabalho que as mulheres estão fazendo. As escritoras têm feito da arte de escrever um meio de comunicação e de afirmação da autoestima lésbica. Esse fenômeno de produção de histórias de autoras lésbicas, com obras que não se restringem ao público lésbico ou LGBT, surgiu a partir de uma inquietação com as obras disponíveis.

Cansadas das histórias de desencontros, de finais desastrosos escritas por curiosos e que não exprimiam a realidade delas, as escritoras parecem ter incorporado a máxima “você não pode fazer um novo começo, mas pode criar um novo final”. Elas acreditam que a literatura ajuda as leitoras a vislumbrar um futuro pessoal melhor. Antes, havia a visão externa sobre histórias de amor entre iguais. Eram autores e autoras se debruçando, muitas vezes, sobre um universo desconhecido pelo qual tinham curiosidade (ou fetiche, quem sabe?).

Existem por aí diversas histórias de sofrimentos, de desencontros e mesmo de amores que se perdem para convenções sociais. Por isso, para essas novas escritoras um conto simples, um happy end escrito e publicado não é tão banal assim. Elas escrevem as histórias que gostariam de ler, revolucionando mundos: os delas e o das leitoras.

Se observarmos a evolução da história humana, é fácil perceber que o futuro sempre foi feito de sonhos. E a partir deles, construíram-se realidades. O legado dessas escritoras para as gerações que virão é um imaginário rico, vasto, cheio de possibilidades, no qual a dor existe sim. Mas também onde o amor triunfa (o novo final!). E esse novo final contribui para a autoestima e a afirmação positiva tanto das autoras quanto, principalmente, das leitoras.

No entanto, a escrita de diversas escritoras lésbicas (Safo, Jeannete Winterson, Sarah Waters, Vange Leonel, Diedra Roiz, Danieli Hautequest, Karina Dias e tantas outras) pula os muros do mundo lésbico e pode (e deve) ser lida por todos. Nas obras dessas autoras que escrevem especialmente para elas, a homossexualidade aparece como sentida: parte da vida.

Isso sem contar a literatura riquíssima que é produzida e consumida na internet. Num país em que as tiragens de livros raramente passam de 30 mil exemplares, ter histórias com mais de 100 mil leituras é um fato a ser bastante comemorado.

E tanto os livros quanto as histórias online são, por certo, obras fundamentais para entender a evolução da homossexualidade em seu contexto social, a partir da visão de escritoras que têm a convicção de que ser uma “escritora-lésbica” não consiste apenas em considerar a homossexualidade como um tema, mas afirmar uma experiência que interliga vida e obra, sem reduzir a obra a um dado da biografia. Pois a experiência homossexual nada tem de redutora, ao contrário, implica uma ética e uma estética dentro do universo literário.

O movimento LGBT começa dentro de cada pessoa quando nos permitimos conhecer a nós mesmas, nossos medos, sonhos, sentimentos e desejos. Ler e escrever nossas histórias também é uma (linda) maneira de militar por nossa causa.

 

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