O velho e batido discurso fóbico da Igreja: o alvo agora somos @s LGBTs
11 de janeiro de 2012 por Brunella França
Arquivado em Colunas, Destaques, Movimento, O amor que ousa dizer o nome

O ano nem bem começou e já nos deparamos com declarações homofóbicas daqueles que, segundo dizem, são mensageiros do amor. Irônico, não? Mas, na última segunda-feira, durante um pronunciamento de ano novo a diplomatas de quase 180 países acreditados no Vaticano, o Papa Bento XVI disse, do alto de sua “santidade”, que o casamento homossexual é uma das várias ameaças atuais à família tradicional, pondo em xeque “o próprio futuro da humanidade”.
De acordo com Bento XVI, a educação das crianças precisa de “ambientes” adequados, e “o lugar de honra cabe à família, baseada no casamento de um homem com uma mulher” (qualquer semelhança com Bolsonaros da vida NÃO É mera coincidência). “Essa não é uma simples convenção social, e sim a célula fundamental de cada sociedade. Consequentemente, políticas que afetam a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade”.
O primeiro ponto que quero abordar é esse conceito “família tradicional”. Que tradição é essa? Desde quando? Instituída por quem? Ou alguém pode negar que NUNCA na história da humanidade houve um modelo único de família? Algum historiador tem provas irrefutáveis de que em todas as casas, comunidades e tribos a composição do núcleo familiar era a mesma desde a Antiguidade até os dias atuais? A família foi sempre a mesma, sem quaisquer alterações? Pelos conhecimentos superficiais que tenho, a resposta é NÃO.
A “Santa Igreja Católica”, que se coloca como guardiã da vida, da moral e dos bons costumes, da qual o Papa é o líder máximo, promoveu a “Santa Inquisição”; ofereceu a “base teórica” para justificar a escravidão; dizimou milhares de culturas indígenas com sua “catequese”; fechou os olhos para a matança de milhares de negros e índios em nome do poder e da riqueza; apoiou o Nazismo; é a favor da mortalidade feminina interferindo em questões LAICAS de direitos reprodutivos e acoberta os casos de pedofilia DENTRO DO PRÓPRIO CLERO.
Mas a ameaça à humanidade somos nós, @s homossexuais!
É muita hipocrisia insistir no discurso de que “o homossexualismo (sic) é objetivamente um transtorno e constitui para muitos deles (nós, @s homossexuais) uma provação”. Mas vejam só que lindo: a Santa Sé condena ainda qualquer tipo de perseguição violenta aos gays e afirma que tod@s @s que quiserem “mudar de vida” serão bem-vindos à Igreja.
A mesma instituição que prega que tod@s @s seres humanos são filh@s de seu deus e, mais ainda, criad@s a imagem e semelhança dele, apresenta um discurso de sua autoridade máxima NEGANDO aquilo que “está na bíblia”. Seremos aceit@s apenas se formos tod@s cordeirinh@s, mans@s e seguirmos aquilo que querem que sigamos e acreditemos.
A Igreja recusa-se a aceitar que não se escolhe nascer homo, hétero ou bissexual. SOMOS ASSIM! É a diversidade da espécie humana, tão comum na natureza.
O maior medo da Igreja Católica – e das demais doutrinas religiosas dogmáticas – é justamente a emancipação das pessoas quanto ao “pensar”. As igrejas mundo afora têm sua força baseada na vida do além, ou seja, naquilo que se supõe que exista e que acontecerá algum dia.
As religiões, TODAS, se escondem atrás da palavra “mistério”, aquilo que não se pode entender e deste modo pretende que nunca se possa analisar criticamente o que não pode ser explicado.
A verdade, porém, é que atrás do mistério pode-se esconder de tudo, por exemplo, a infabilidade papal. Assim que o homem é eleito Papa – num ritual de conchavos do qual pouco sabemos – ele é imediatamente elevado à categoria de perfeito e infalível, aquele que não comete erros.
Convenhamos que é muito fácil comprar o perdão dos mortos com um texto bem escrito, como os milhões de negros e índios que morreram pela sede do ouro e do poder da Santa Madre Igreja, para sustentar a opulência de seu clero. Muito fácil também é proclamar santa quem fora queimada viva numa fogueira, como Joana D’arc.
O discurso do Papa deixa claro que, para a Igreja, nós homossexuais somos uma espécie de fenômeno, de erro humano que possa ser “consertado”. Essa mesma igreja recusa-se, porém, a também ser vista como um fenômeno humano e social e, como tal, possa ser analisada.
Será que tod@s @s que se dizem seguidores do Cristo conhecem a história daquilo que professam? Sabem que a “divindade” de seu Jesus foi votada num Concílio numa época em que a Igreja perdia adeptos? Sabem que o mito da ressurreição ao terceiro dia foi copiado da mitologia egípcia, muito mais antiga? Entendem que o domingo ser considerado “dia santo” vem da fé dos gregos antigos à adoração do sol? Será que tod@s @s que rezam o credo têm noção de que a bíblia é um livro montado, editado e traduzido de acordo com os interesses das religiões, de acordo com aquilo que mais convém a elas?
Dentro da minha própria família a resposta grita! Eu não teria o menor problema em conviver com religiões e religiosos se estes se dignassem a realmente apenas oferecer àquelas e àqueles que buscam o conforto para a alma numa crença em uma entidade superior, todo-poderosa, que governa o Universo segundo seus desígnios, caprichos e bel-prazer.
O problema é quando aquilo que foi criado para oferecer conforto a essas pessoas oferece não só desconforto a outras, como dissemina o ódio e, apesar de a Revolução Francesa ter determinado a separação entre Igreja e Estado, resiste em sair da Idade Média quando era o centro de poder do mundo.
O deus oferecido hoje pelas igrejas, que, segundo análise de Michael Focault, se utilizam do medo e do temor para atingir o domínio das mentes, é um deus antropomorfizado, não mais um mistério divino, mas um mistério humano.
Religiões baseadas em magia, alguma aparição, vozes saídas de nuvens ou na intervenção do sobrenatural em várias formas: milagres, revelações ou um homem erguendo-se dos mortos, atraíram milhões de pessoas com suas pretensões. E o que fizeram à história humana? Guerras, perseguições e massacres. É o preço que pagamos, crentes ou não, pelo fanatismo.
O “credo” que rezo é muito diferente do que me foi ensinado nos anos de catequese. Creio no ser de iguais direitos, de não ser igual ou diferente, apenas SER. Creio que não existem meios termos, existem pessoas! Acredito que o preconceito é, na verdade, a camuflagem para o desejo e para o medo de descobrir sobre si mesm@.
E apesar de não ser cristã e de não professar essa fé, rezo por tod@s aquel@s, incluindo o Papa, que ainda não aprenderam a ser gente. E espero que um dia ninguém seja visto ou dito melhor ou pior, que seja possível ser apenas e viver dignamente com a cor que nascemos, com o sexo que escolhemos e com o gosto do gosto que queremos.
Minhas preces se resumem a apenas uma: que a quem se julga “melhor”, “superior”, “perfeit@” ou mais “pur@”, seja dado o presente de entender que tod@s nós nada mais somos que iguais. Amém.



ES. Jornalista. Autora ABCLes.
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Sempre me entristesse ver como nós, humanos, ainda precisamos evoluir. Nosso querido Papa, vossa santidade superpoderosa adora falar de homoafetividade (odeio o termo homossexual) mas ele prefere não falar a respeito da sessão de livros proibidos do Vaticano,por exemplo, afinal de contas, não convém divulgar como divino algo que tem o potencial de destruir a santa e amada igreja. Se eu tenho algo contra a fé? De forma nenhuma… mas a hipocrisia escondida atrás dessa bandeiara, essa sim me tira do sério. Enquanto o Papa discute e se pronuncia a respeito do certo e errado, seja em que área for, milhares de pessoas morrem de fome, de frio, de gripe, enfim, simplesmente morrem. Enquanto ele veste linho, seda e outros tecidos luxuosos muita gente vive em condição sub-humana envolta em trapos. O que será que o deus dele pensa a respeito disso??? E o mais importante, o que querido Papa faz para essas pessoas? Ele joga água benta? Ele “reza” por elas? Porque ele realmente deve fazer muito…se ele tem tempo para se ocupar da nossa orientação sexual me assusta o fato de ele ainda não ter acabado com a fome mundial e com as injustiças.
Mas é claro que é muita hostilidade da minha parte achar que o Papa cuida de seus próprios interesses, afinal de contas ele é o representante de deus né, ele é a voz de deus na terra né… Não ficaria nem um pouco surpresa se a vossa santidade fizesse um pronunciamento sobre Jesus e o comunismos, afinal de contas, seria ótimo para imagem da santa igreja, principalmente com os empresários não é mesmo!!!!
Recentemente, numa notinha bem discreta no canto do jornal, encontrei uma noticia que me emocionou demais. Um casal gay do interior de São Paulo, depois de uma longa batalha judicial foi ‘contemplado’ com o direito de adotar. Inseridos no Cadastro Nacional de Adoção, receberam o chamado para conhecer uma criança num Orfanato do Rio de Janeiro. Quando la chegaram descobriram tratar-se se cinco irmãos, cujos pais (usuarios de crack e vivendo na rua) tiveram o poder familiar destituido. O casal ficaria com apenas uma delas. Mas se enterneceram com a situação e trouxeram as cinco crianças para casa. Em razao das idades e por serem negras , a propabilidade de adoção era mínima.
São pessoas assim que os religiosos apontam como ameaça a ‘familia’.
Eu imagino como estavam esses coraçõezinhos sabendo que o irmão menor seria adotado e que talvez nuncam mais o veriam. Que angustia , a iminência de uma separação; que pavor quando viram o casal que levaria o irmaozinho. E que alivio e alegria quando descobriram morariam juntos na mesma casa, com os mesmos pais. Chamem isso de familia, nucleo, ajuntamento, coleção, não importa a nomenclatura ; imprescindivel é o amor e necessario o respeito.
O Cristo no qual eu creio , aplaudiu essa ação .
O Cristo que cultuo ,se enterneceu com essa demonstração inequivoca de doação.
Se pessoas assim são uma ameaça, eu quero o mundo infestado delas; que proliferem e se multipliquem.
Avante!
Bjs
Gi, eu sinceramente queria que pessoas como você fossem as disseminadoras das religiões no mundo.
Obrigada, obrigada e obrigada!
Beijos
Bru
Boa Tarde.
Gostei muito do artigo. Infelizmente o problema não é o “divino” e sim o humano… A carne… O preconceito existe em praticamente todas as religões… Mesmo aquelas que aceitam homossexuais… O que precisa evoluir é o pensamento e a atitude humana…
Bjs
Exatamente Mônica!
Penso que já está mais do que na hora de a humanidade arcar com as consequências de seus atos, ao invés de oferecer razões /explicações divinas.
Beijos