O amor que ousa dizer o nome: Racista não, homofóbico sim
6 de abril de 2011 por Brunella França
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Dica de matéria por Emeli
Infelizmente, não é o primeiro e nem será o último caso de homofobia partindo daqueles que deveriam garantir os direitos de TOD@S @S CIDAD@S deste País. Mas o fato de as declarações do Deputado Federal Jair Bolsonaro (PP/RJ), em entrevista exibida no programa Custe o Que Custar (CQC), em 28 de março de 2011, quando foi questionado por várias pessoas, uma delas a cantora Preta Gil, sobre como reagiria se seu filho namorasse uma mulher negra, terem gerado tanta repercussão é que o parlamentar preocupou-se em desse defender dizendo que não é racista. Afinal, racismo é crime previsto na Constituição Federal. A homofobia (ódio aos homossexuais) não.
A resposta de Bolsonaro foi: “Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu”. Após ser acusado de racista, o parlamentar lançou nota afirmando que “A resposta dada deve-se a errado entendimento da pergunta – percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay (…). Reitero que não sou apologista do homossexualismo (sic), por entender que tal prática não seja motivo de orgulho.” Em outro momento, na mesma entrevista, o Deputado também disse que jamais poderia ter um filho gay.
Mas quem é Jair Bolsonaro? Deputado Federal, 56, filiado do Partido Progressista, é um amante da vida militar. Cursou a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, a Academia Militar das Agulhas Negras e integrou a Brigada de Infantaria Paraquedista. Estava entre os militares durante a ditadura militar no Brasil. Pasmem: este já é seu sétimo mandato, incluindo esta última eleição.
Algumas das ideias que o deputado se declara abertamente a favor:
– Torturas em caso de tráficos de droga e sequestros
– Execução sumária em caso de crime premeditado
– É contra as cotas raciais
– É a favor de surras em crianças que tenham tendências homossexuais
– Não reconhece uniões e eventos LGBT
O Deputado Jair Bolsonaro vai contra TODOS os ideais que uma sociedade democrática visa a conquistar com plena segurança e parece desconhecer também a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Nesta última quarta-feira (30 de março), durante o velório do ex-vice-presidente José Alencar, Bolsonaro afirmou que estava “se lixando” para o movimento gay.
As declarações do “representante do povo” revelam um preconceito odioso. E não se pode ficar calado quando alguém que tem o poder de nos representar publicamente faz declarações como estas. Estima-se que no ano passado o Brasil teve 252 assassinatos motivados por ódio aos homossexuais (dados do Grupo Gay da Bahia).
O ódio aos homossexuais produz também outra sombria estatística. Três adolescentes gays se matam por dia no Brasil. Um a cada oito horas. Seis garotos se matam para cada uma garota. Em um ano, 906 garotos preferem morrer a continuar sofrendo humilhação; 150 garotas escolhem desaparecer a ter de lutar pelo direito de amar quem elas quiserem. Ao todo, 1.056 adolescentes.
O estudo lançado pelo departamento de Medicina Preventiva e Social da Unicamp, que contém os números acima apresentados, atestou que a principal causa de suicídio entre jovens se relaciona com frustrações no âmbito familiar e afetivo. Os adolescentes homossexuais estão morrendo por falta de amor e respeito. E isso é um produto da sociedade heteronormativa da qual o Deputado Bolsonaro é defensor.
De acordo com as declarações do parlamentar, ele deveria ser apurado o crime de racismo (Art. 20 da Lei 7.716/89) e injúria e difamação (Art. 139 e 140 do código) contra a população de mulheres e a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT). A inviolabilidade do discurso parlamentar NÃO PODE SER um salvo-conduto para a discriminação.
Homofobia NÃO!
Este caso serve para demonstrar ainda mais a importância de o Brasil aprovar a PL 122/2006, que torna crime a homofobia. São vidas interrompidas pelo ódio à diferença. Pelo ódio aos homossexuais. Vai muito além de “ouvir gracinhas”. A gradação da homofobia vai da chacota, difamação, discriminação, agressão física até o extermínio. A homofobia é cotidiana e disseminada.
Por isso mesmo, deve ser questionada nas atitudes, nos comportamentos, nas ideias, nas imagens e nos argumentos, nas instituições, incluindo aqui a mídia e o próprio Estado Brasileiro, quando um parlamentar levanta a voz para fazer declarações homofóbicas e incitar o ódio aos homossexuais.
São formas de inferiorização, de tratamento discriminatório, que resultam da hierarquia de gênero e da sexualidade. A diferença é transformada em desigualdade, negação de direitos e exclusão social. Homossexuais são discriminad@s no mercado de trabalho e até mesmo em família. Por que a nossa intimidade é mais importante do que aquilo que somos?
Se somos insultad@s verbalmente, o problema é nosso; se somos atacad@s violentamente é porque nós provocamos; e se levantamos a voz em nossa defesa, incomodamos porque estamos nos exibindo. Se gostamos de sexo, somos pervertid@s; se temos AIDS é porque merecemos e estamos sendo castigad@s; se marchamos com orgulho é porque queremos recrutar crianças e se queremos ou temos filh@s, não somos mães/pais competentes.
Se falamos em defesa de nossos direitos, ultrapassamos o limite da marginalidade onde fomos colocad@s. Uma relação amorosa com alguém do mesmo sexo não é reconhecida como casamento, e ainda dizem-nos que o nosso amor não é verdadeiro, que é doença, que é pecado.
Se nos assumimos, estamos somente passando por uma fase, somos @s nov@s rebeldes sem causa. A verdade é que a história d@s homossexuais está praticamente omissa nos “fatos históricos” e na literatura acadêmica. O crime de homofobia não é sequer reconhecido, muito menos penalizado na maioria dos tribunais, quando chega lá. E somos constantemente forçad@s a duvidar de nosso valor enquanto seres humanos.
A PL 122/2006 não é nenhum favor, nenhum privilégio dado aos homossexuais pelo Estado Brasileiro. É um direito à dignidade e à vida, ambos assegurados pela Constituição Federal. Um Brasil melhor é um Brasil sem homofobia!



ES. Jornalista. Autora ABCLes.
Colunas: 








Brunella,
Mais uma vez me deixas sem palavras. Cada linha desse artigo reflete a nossa dor. Tantas são as vezes que nos sentimos desamparados por esse Brasil que deveria ser de tod@s. E esses canalhas como Bolsonaro de certa forma sabem que sairão impunes.
É triste. É revoltante.
E ainda é fruto de uma negligência anterior… Enquanto na Argentina nessa mesma semana mais um torturador da Ditadura foi condenado, no Brasil esses monstros seguem livres, desfrutando do erário.
Temos muito trabalho pela frente, Bru! Não deixemos que os Bolsonaros da vida nos desanimem.
Sara:
não deixaremos mesmo!
Porque a força que nos move é muito mais poderosa: o amor!
Obrigada pelo carinho^^
beijos
Bru
Brunella, Obrigada pelo texto, como sempre, você arrebentando, maravilhoso, porem… Desesperador. Confesso-me muito triste nos últimos dias com tudo o q está acontecendo, lendo o q você escreveu e acompanhando por internet, teve e outros meios de comunicação.
Estamos morrendo a cada dia, vendo essas estatísticas que você postou aqui, por varias vezes tive vontade de cometer uma insanidade dessas. O agravante disso tudo é que, assim como eu, muitos de nós não somos assumidos, então assistimos de longe e .
Às vezes eu me pego pensando, por que lutamos tanto para termos direitos em um país que simplesmente ignora nossa existência?
Infelizmente assim como esse deputado temos muitos hipócritas que dizem q não tem preconceito mais…
Tenho uma amiga de nome Jhu, ela foi mandada embora do trabalho na ultima segunda feira por que o patrão descobriu que ela é lésbica e estava morando com sua mulher, se formos contar os absurdos que acontece a cada dia…..
Obrigada por postar fiquei muito feliz. E não poderia ter sido por pessoa melhor, vc arrebenta Bru………
UM BJÃOOOO
Lizi:
a sua dúvida muitas vezes me passou pela cabeça. Mas eu acho que a luta vale a pena sim. Ainda que não cheguemos a usufruir de todos os seus benefícios.
O caso que aconteceu com a sua amiga, infelizmente, não será o último.
Só que eu realmente acredito que possamos fazer a diferença, que possamos ensinar às pessoas. E a transformação só é possível pelo amor!
Obrigada pelo carinho
Beijos
Bru
Brunella.
Obrigada por seu artigo. De fato este Deputado, com sua mente obsoleta e doentia, enoja aqueles que tem o mínimo de ética e equilíbrio.
Hoje, mais uma adolescente alarga as estatíscas de homicídio contra homossexuais. Adriele Camacho de 16 anos foi morta a facadas numa cidade do interior de Goiás pelo irmão de sua namorada. Investigam ainda a participação do pai e do irmão de 13 anos da namorada de Adriele no crime.
Duas famílias destruídas pelo ódio e pela incompreensão!
O crime está determinado pelo Delegado como homicídio qualificado por motivo torpe, pena de 12 a 30 anos de reclusão. Mas o homicida é menor de 18 anos e por isso responderá com base no Estatuta da Criança e adoslescente.
O que quero dizer é que o PL 122/06 é bem vindo, mas não será a lei quem mudará a sociedade. O que muda a sociedade é educação, conhecimento, informação, cidadania e o tempo (quando bem utilizado).
Na cidade do Rio o Prefeito quer inserir nas escolas aula de religião. Se ele estivesse realmente interessado no desenvolvimento social e moral dos jovens cariocas promoveria aulas de cidadania. Esta sim, seria uma boa decisão. Mas cidadania não dá voto!!!
Um beijo e força, sempre!!!
G:
acompanhar os casos de homofobia me dói profundamente. Saber da disseminação do ódio dentro de uma família é algo que me traz lágrimas.
Mas eu não desisto!
Estamos falando, lutando, cobrando e pode ser que não sejamos nós a colher os frutos de uma sociedade melhor, livre de pré-conceitos odiosos.
Mas a luta vale a pena! Eu penso na filha que eu quero ter… Eu penso no que eu vou ensiná-la. Se tantas pessoas, adolescentes ou adultos, estão morrendo por falta de amor, comecemos nós a ensinar o amor.
Obrigada pelo carinho^^
Beijos