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Religiosidade e homossexualidade podem falar a mesma língua

4 de agosto de 2010 por Brunella França  
Arquivado em Colunas, Destaques, O amor que ousa dizer o nome

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Como toda pessoa que escreve deve saber, quando nos deparamos com um desafio, primeiro as borboletas voam no estômago, mas depois vem aquele prazer imenso de ler, ler, ler e estudar. O desafio fica maior ainda quando esbarra nas crenças de quem escreve.

O tema desta semana nasceu do texto A ciranda de opiniões: votos evangélicos X LGBTs, publicado aqui mesmo, no ABCLes. A querida Pry John nos alertou contra o perigo – verdadeiro – da generalização quando falamos em votos evangélicos, como se eles fossem uma coisa só, unida e compacta. A Pry ainda nos ofereceu seu relato de evangélica e militante pelos direitos LGBTs (e que não é fácil ser as duas coisas – leiam os comentários aqui: http://abcles.com.br/destaques/a-ciranda-das-opinioes-votos-evangelicos-x-lgbts).

Do comentário dela, surgiu a ideia de abordar num texto os temas homossexualidade e religiões. Apesar da inicial resistência em escrever sobre religiões (super concordo com o que a opinião da Sara Lecter diz sobre o assunto), o que descobri é que as iniciativas em prol de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e transexuais dentro das tradicionais religiões judaico-cristãs existem e estão crescendo.

Isso não deveria, na verdade, ser uma grande novidade porque onde existem seres humanos, existe diversidade. Inclusive relacionada à sexualidade. E o fato que muita gente vem enxergando é que nenhum argumento religioso contra a homossexualidade sobrevive a uma análise crítica. Qualquer motivo religioso padrão não é mais do que ficção, fruto de convicções cegas. O “argumento” é muito mais uma preferência pessoal, uma posição apoiada por uma “escolha” e não por “argumentos racionais”. A religião, portanto, serve de máscara para encobrir o preconceito.

Nesse embate religiões versus LGBTs, os homossexuais são condenados por serem supostamente contra o deus judaico-cristão (hoje predominante nas religiões praticadas no Brasil) e pecadores – ou seja, somos vítimas da mesma generalização a que acometemos os evangélicos no texto sobre as eleições.

O que posso dizer após pesquisa sobre o assunto é que são muit@s @s homossexuais cristãos contemporâneos que reconhecem a sua auto-aceitação como fruto da graça de seu deus. E testemunham que, desde que se assumiram, sentem-se mais felizes, saudáveis, produtiv@s, afetuos@s, em paz, alegres, próximos de outras pessoas e do deus em que acreditam.

Então vamos a uma pequena análise do livro sagrado para os cristãos. Para todas as admoestações que fundamentalistas e papagaios de piratas (aqueles que repetem as coisas sem ter ido verificar o que era mesmo) fazem afirmando que a Bíblia condena os homossexuais, só há cinco passagens bíblicas que mencionam atos sexuais entre homens. Não há referências explícitas em relação ao sexo entre mulheres (contextualizemos a Bíblia como um livro que é contra a mulher emancipada, a igualdade jurídica, a abolição de escravatura e o casamento monogâmico). Ou seja, nem de pecadoras as lésbicas podem ser chamadas *lixa a unha*.

De acordo com investigadores contemporâneos, Jesus Cristo se preocupou muito pouco com homossexuais e há um certo número de histórias bíblicas que mostram uma grande simpatia em relação às relações próximas ou íntimas entre membros do mesmo sexo.

Um dos livros mais acessíveis a propósito da controvérsia teológica é What the Bible Really Says About Homosexuality (O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade), de Daniel Helminiak (1994), um padre católico. A obra de 119 páginas refuta definitivamente uma comum e antiga afirmação: “a Bíblia condena a homossexualidade. Está escrito”. Na realidade, o padre chega à conclusão que a verdade é justamente o oposto. Investigações bíblicas mais recentes mostram que o livro sagrado dos cristãos é basicamente indiferente em relação à homossexualidade. “A Bíblia preocupa-se somente, tal como com a heterossexualidade, com as práticas que violam outros requisitos morais”, escreve.

Também é importante chamar a atenção para o fato de a homossexualidade, e a sexualidade em geral, ser um conceito muito recente. A Bíblia, em algumas passagens, fala de atos específicos entre membros do mesmo sexo. E, pela versão do livro que chegou até os dias atuais, Jesus nunca falou realmente sobre o assunto. Os fiéis LGBTs que abraçam a Bíblia e a fé judaico-cristã como ideais de suas vidas têm a visão de que é importante realçar que todas as histórias bíblicas têm um objetivo: uma lição moral sobre a fé e a compaixão.

Duas passagens que são usadas para condenar os homossexuais masculinos são a história de Sodoma e Levítico 18, 22 e 20, 13. Durante séculos, a história de Sodoma, encontrada no livro do Gênesis, tem sido utilizada contra homossexuais, que têm sido tratados como marginais por igrejas e sociedade. “Tal opressão é exatamente o pecado que as pessoas de Sodoma cometeram”, afirma Helminiak.

As passagens do Levítico denunciam relações sexuais entre homens e o castigo apresentado é severo. Em Levítico 20,13 é dito: “Se um homem se deitar com um homem, como se deita com uma mulher, ele deve ser morto, o seu sangue deve ser derramado”. Mas há de se observar que o Livro do Levítico é sobre o Código Sagrado e os atos homossexuais condenados eram praticados em rituais de religiões pagãs, das quais os Judeus queriam se diferenciar.

“A Bíblia não toma nenhuma posição clara e direta a propósito da moralidade dos atos [homossexuais] em si ou acerca da moralidade das relações gay e lésbicas”, conclui Helminiak.

Para o teólogo, missionário e jornalista americano Thomas Hanks, “a Bíblia tem muito mais boas novas do que condenações”. Como exemplos, ele menciona o relacionamento entre Ruth e Noemi, Davi e Natanael, Cristo e o discípulo amado. “A parábola do filho pródigo também deve ser lida na perspectiva gay”, sugere.

Apontando para Romanos 13, 8-10, Hanks afirma que se houvesse amor entre as pessoas como ensinou Jesus – amar os outros como a si mesmo –, tudo estaria resolvido. Duas pessoas que se amam não estão contrariando nada. “Uma das fortes razões da homofobia reside no fato do homem homossexual ser visto como um traidor dos privilégios da superioridade do varão. Muitos pais se sentem culpados e veem como castigo de Deus o fato de terem filhos homossexuais. Também as mulheres lésbicas sofrem. E duplamente – por serem mulheres e por serem lésbicas. Não são mal vistas como traidoras, mas sim por quererem ser superiores às outras mulheres, por quererem se igualar aos homens”, observa o missionário.

No Brasil, encontrei o Pastor Victor Orellana. Nascido no Chile, criado em uma família metodista em São Paulo, ordenado pastor na Assembléia de Deus, fundou a Igreja Evangélica Acalanto, conhecida pela aceitação da homossexualidade. Ele é gay e admite sua homossexualidade publicamente (contato: outrasovelhas@hotmail.com).

Outro religioso a favor dos LGBTs é o teólogo e historiador Márcio Retamero, mestre em História Moderna pela Universidade Federal Fluminense e pastor da Comunidade Betel do Rio de Janeiro. Desde 2006, a Comunidade Betel se intitula uma Igreja Protestante Reformada e Inclusiva, que milita pela inclusão de LGBTs na Igreja Cristã. Além de exercer papel fundamental na luta pela aceitação de homossexuais na Igreja, a Betel celebra o que chama de Rito de Casamento entre pessoas do mesmo sexo, isto é, uma cerimônia onde casais gays recebem a bênção matrimonial.

E não é que o pastor conhece o mantra da tia Bru? Leiam as palavras dele: “Homossexualidade não é doença física ou psíquica. Homossexualidade não é contagiosa. Homossexualidade é orientação sexual como heterossexualidade é uma orientação sexual. Como teístas, acreditamos que a orientação sexual faz parte da diversidade da criação de Deus e tudo o que Deus criou. Neste sentido, homossexualidade é bênção de Deus e não maldição. Os que usam as Escrituras para condenarem a homossexualidade nada sabem sobre a Bíblia. A leitura deles é uma leitura literalista, mas seletiva. Além disso, outro problema grave são as traduções modernas que não são fiéis aos textos mais antigos como a Bíblia Nova Versão Internacional, dentre outras. Eles usam desonestamente termos criados no século XIX como ‘sodomitas’ ou modernos como ‘homossexuais’ para traduzirem erroneamente termos gregos como arsenokoitai e malakós, que longe estão da noção de homossexualidade como nós a entendemos nos dias de hoje. Não existe tradução bíblica não ideológica. Para mudarmos o quadro de exclusão de homossexuais nas comunidades de fé cristã, é preciso o combate às traduções ideológicas das Escrituras”.

Dentro da Igreja Católica, não achei nenhum programa/pastoral/grupo, whatever, ABERTAMENTE em prol de homossexuais, mas descobri iniciativas individuais e veladas – ou seja, sem o conhecimento do Vaticano – de padres (gays) que prestam auxílio religioso a LGBTs e às famílias destes. Na edição número 15 da revista Júnior – que traz o depoimento de quatro padres gays – padre Tiago afirma que “mais de 50% dos padres são homossexuais”. A frase que mais me marcou: “Nasci negro e gay, me fizeram cristão e me fiz padre”, padre Emanuel. (Quem quiser ler a reportagem completa, favor entrar em contato comigo por e-mail que envio as páginas escaneadas – brulf@hotmail.com).

Deixo aqui para vocês duas páginas interessantes, uma evangélica e outra católica, com bastante conteúdo sobre religiosidade e homossexaulidade, que encontrei durante a pesquisa: Gospel LGBT: homossexualidade sem preconceitos (http://gospelgay.blogspot.com/) e Diversidade Católica (http://www.diversidadecatolica.com.br/default.php).

E se você é ou conhece alguém que pratica uma religião tradicional e não tem conflitos com a homossexualidade, relate para a gente nos comentários.

(Quero justificar que não abordei neste texto o Espiritismo nem o Candomblé porque as duas religiões aceitam a homossexualidade como algo natural e celebram a uniões entre LGBTs).

Para quem quiser ler mais sobre o tema, deixo três links:

Homossexualidade e religiãohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Homossexualidade_e_religi%C3%A3o

Entre a fé e o desejo. Uma reflexão sobre religião e homossexualidade no Brasilhttp://www.diversidadecatolica.com.br/opiniao_detalhes.php?id=3

Igreja e homossexualidade no Brasil: cronologia temática, 1547-2006http://www.diversidadecatolica.com.br/opiniao_detalhes.php?id=2

http://abcles.com.br/wp-content/uploads/2010/08/mesmalingua_chamada.jpg

Brunella França

ES. 23 anos. Estudante de Jornalismo. Autora abcLES. Colunas: Ménage à Quatre, O amor que ousa dizer o nome. [Perfil]

 

 

Comentários

14 comentários para “Religiosidade e homossexualidade podem falar a mesma língua”
  1. Fe_anjos disse:

    Adoro seus textos sabia??!!

    Eu tive educação catolica com direito a batismo, comunhão e crisma, mas quando pude “escolher” me senti mais acolhida pelo Espiritismo. Minha namorada é católica praticante. Houve uma época em que enfrentei um conflito religioso por ser homossexual e tals. Nunca deixei de crer em Deus. Não acredito que serei condenada a danação eterna por amar outra mulher. Deus é amor, compreensão, compaixão, paz. Qualquer coisa diferente disso não é Deus.

    Beijokas

  2. Angel Angel disse:

    Bom…minha grande revolta você já conhece, né?
    Sempre em torno desse tal pré-conceito (sempre com essa grafia) e sendo assim, me manifesto apenas da seguinte forma:
    Seu texto está maravilhoso, sua coluna é maravilhosa…
    Parabéns, bjs…

  3. Andyara disse:

    Olá Brunella,

    Ontem mesmo saiu uma publicação de um artigo que escrevi sobre esse tema deixo o link se você quiser conferir minha opinião sobre o assunto http://www.livrearbitrio.net/LIVRE_ARBITRIO/Livre_reformulado/happyhour/andyara/orientacaosexualdeacordocomdeus.html
    O que tenho a dizer sobre essa questão é que eu sou católica praticante e de forma alguma me sinto menos cristã por ser homossexual, como eu digo no artigo chega a ser uma hipocrisia ver tanta gente envolvida em protestos contra a destruição da diversidade ambiental do planeta enquanto a diversidade sexual humana é tão combatida. Tive três relacionamentos com mulheres também católicas, inclusive duas delas quase foram freiras, e tenho amizade com outras tantas que estão na mesma situação. Ter religiosidade e ser homossexual na minha opinião, não são sitações opostas em que só podemos optar por uma delas. Parabéns pelo artigo.

    • Andyara, primeiro, muito obrigada por enriquecer o texto com o seu depoimento. É muito importante a participação de cada uma aqui e fiquei muito feliz em encontrar a sua.
      Sobre o seu texto no Livre Arbítrio, fui lá e e li. Fiquei encantada com esse ponto de vista, atrelando a diversidade sexual à biodiversidade. Era uma relação q eu não tinha feito ainda e me ampliou os horizontes.
      Obrigada pelo carinho.
      :kiss:

  4. Lancei o desafio, e resposta, foi bem além do que esperava.

    A matéria, realmente, ficou ótima. Consistente, sem demagogias. O que me deixou ainda mais feliz ao lê-la foi seu empenho em ser jornalista em todo o sentido da palavra.

    Parabéns, querida. MUITO orgulho de você.

    Beijão! :)

  5. aPluz aPluz disse:

    Bru, foi de extrema importancia sua abordagem.
    Existem diversas correntes e doutrinas religiosas por aih, e a maioria nos condena e nos repele de uma vida digna. Eh preciso que nao nos ocultemos diante desse desafio. Acredito na importancia da fe na vida do ser humano, mas nunca poderemos leva-la ao extremo quando esta vier a prejudicar ou tolher a liberdade alheia. A base de qualquer religiao eh promover o amor, a uniao. As proprias Igrejas vem, gradativamente, mudado seu posicionamento sobre o assunto, como vc mesma, brilhantemente, fundamentou neste artigo.
    Daisaku Ikeda, grande lider budista, em seus ensinamentos jah disse: “Mesmo que tente distorcer a verdade, certamente chegará o momento em que ela será provada, ou melhor, devemos comprová-lá a todo custo. Da mesma forma, mesmo que o mal seja camuflado por todos os meios, ele será um dia desmascarado para então encontrar a sua ruína e desaparecer.” Nao sou budista, mas compartilho sua visao baseada na filosofia humanística. O budismo encara a homossexualidade como algo normal, para eles existem muitos outros fatores, ou valores que se sobrepoe a sexualidade.
    A Kriz lembrou bem, como esse eh um assunto tao controvertido, este espaco para exposicao de ideias e debates eh de suma importancia.
    Parabens pelo grande trabalho. bjks :) :kiss:

    • Ana, obrigada por sua contribuição com o budismo^^
      Eu admiro a filosofia zen budista pelo mesmo motivo: o viés humanístico com o qual eles enxergam as coisas.
      A presença sua e de todas aqui é muito importante.
      E fico muito feliz ao receber esse retorno. Confesso q de todos os textos q escrevi para a coluna, por motivos pessoais, esse foi o mais complicado.
      Obrigada pelo carinho!!!
      beijos enormes
      :love:

  6. Kriz Kriz disse:

    Bru, achei o texto bem fundamentado, e, o que é mais importante, com espaços para a realização de debates entre as mais diversas correntes. Nada fechado, nada conclusivo.
    De minha parte, devo admitir que ando em crise com minha religião que é a Católica Apostólica Romana. Tive uma educação fundamentalista, estudei Teologia, fui catequista. Hoje experimento os sabores e dissabores da não-religião, mas continuo crendo com todas as forças em um Deus Uno e Trino ao qual pertenço e estou imersa.
    Parabéns pela reportagem. :p

    • Kriz, o seu comentário quase me fez chorar aqui! Explico: era exatamente isso que eu buscava, um texto não conclusivo, não fechado, mas trouxesse possibilidades.
      Fiquei super com os olhinhos brilhando aqui…
      *___________________________________________*
      Obrigada pelo carinho.

      beijos
      :D

  7. Pry John disse:

    Nossaaaaa!!! Estou muito feliz pela matéria… Muito Obigada!!!! É realmente muito especial pra mim… Qdo decidi usar os “dedinhos” no outro artigo, naum tive idéia que teria um retorno tão positivo…
    Sinto HONRADA por meu nome ter sido citado no artigo… rs!!! Obrigada mais uma vez pela matéria… é bom que as pessoas saibam que estamos aqui!!! Gays, Lésbicas e afins fazem parte das igrejas evangélicas… e tudo o que queremos é respeito!!! O resto conseguimos sozinhos!!! Bjs Brunella e parabéns…

    • Pry, fico muito feliz de você ter gostado do artigo. Afinal, foi seu comentário quem o motivou.
      Obrigada por compartilhar conosco sua história, abrindo mais pontos de vista, fazendo-nos refletir mais sobre o assunto.
      Eu que agradeço a sua disponibilidade em partilhar conosco, originando esse texto.

      beijos
      :D

  8. Aeeee.. Fico muito legal!!
    Parabéns!!
    E fico feliz de ter ajudado um pouquinho!! hehehe..

    Bjinhos!

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