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Sangue Gay

2 de junho de 2010 por Brunella França  
Arquivado em Destaques, O amor que ousa dizer o nome

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6 comentários


Você tem entre 18 e 60 anos? Pesa mais que 50 kg? Não teve hepatite após os 10 anos? Não teve contato com o inseto barbeiro, transmissor da doença de chagas? Não teve malária ou esteve em região de malária nos últimos seis meses? Não sofre de epilepsia? Não tem ou teve sífilis? Não é diabético? Não tem tatuagens recentes (menos de um ano)? Não recebeu transfusão de sangue ou hemoderivados nos últimos 10 anos? Está sem ingerir bebidas alcoólicas há 24h? Está bem alimentad@? Dormiu pelo menos 6 horas na última noite? Não transou sem camisinha? Não transou com mais de três pessoas nos últimos três meses? Não usa drogas?

Perfeito! Você já pode doar sangue. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil precisa de 5.500 bolsas de sangue por dia. Ops, a entrevista ainda não terminou. Falta uma perguntinha do questionário. Se é homem: alguma vez teve relações sexuais com outro homem?

Se a resposta for sim, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), pede para informar que você está impedido de ser doador. A Agência parte do pressuposto de que ser gay ou bissexual é um modo de vida promíscuo, e mantém a ideia equivocada de que “existem grupos de risco’’. A proibição contraria o ato solidário da doação de sangue.

A Coordenação de Sangue e Derivados do Ministério da Saúde através da Portaria 1376/93 proíbe aos gays a doação de sangue. Desde que oficializada, nenhum banco de sangue público ou privado do Brasil pode aceitar doação de sangue de homens homossexuais.

Mas qual a origem dessa restrição? Anos 1980, quando a AIDS foi tachada de “doença gay”. A mídia, a medicina e a polícia se uniram para criar um estigma: ser portador de HIV significava, necessariamente, ter tido relações homossexuais.

O futuro mostrou que não era bem assim. E os lares heterossexuais não estavam imunes à AIDS. Tanto que, atualmente – ainda com dados do Ministério da Saúde – 75% das pessoas infectadas com HIV/AIDS são heterossexuais.

Mas sabem o que revolta mesmo nessa história? A hipocrisia! Sim porque se um gay dor a um hemocentro e se declarar heterossexual, não há impedimento algum! O sangue dele será colhido e muito bem recebido. Trata-se de um constrangimento e uma incoerência sem tamanho. É vergonhoso termos uma resolução federal baseada em puro preconceito, em resquícios de um pânico geral que tomou conta do país no final dos anos 1980 e início da década de 1990 (para ter um panorama completo sobre o assunto, ler a parte VII de Devassos no Paraíso, João Silvério Trevisan).

A questão é bastante séria. As campanhas para a doação de sangue evocam a cidadania de quem está dispost@ a doar. Ao mesmo tempo, nega um direito aos gays, excluídos de exercer uma ação solidária, colocando-os, mais uma vez, à margem.

A tal portaria da Anvisa se esquece de que todo sangue doado passa por rigorosos testes para impedir possíveis infecções durante a transfusão. Logo, não se justifica a invasão de privacidade e constrangimento pelo qual pode passar o doador homossexual. Não há o menor risco para os receptores.

Essa discriminação hipócrita se torna ainda mais absurda quando sabemos que Brasil, cerca de 1% da população é doadora de sangue, quando a ONU (Organização das Nações Unidas) recomenda que o ideal seja de pelo menos 6% doe.

Ao negar a doação de sangue por homossexuais, o Estado comete dois gravíssimos equívocos: invasão de privacidade e discriminação contra os homossexuais. Somem a isso mais 78 direitos negados à comunidade LGBT no Brasil (lista completa aqui: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/07/450310.shtml).

Em ano de instituição do Dia Nacional de Combate à Homofobia e da I Marcha Nacional LGBT em Brasília, seria mais do que digno a Anvisa revisar essa portaria constrangedora.

E já que nós mulheres não somos impedidas de doar sangue, façamos desse ato uma ação contra a proibição dos gays. Sejamos doadoras e declaradamente homossexuais.

Nem menos, nem mais: direitos iguais!

O tema da coluna desta semana foi sugerido via e-mail pela Angel. Esse diálogo é super importante para a construção do nosso espaço, meninas. Então, não hesitem em darem sugestões. Pode ser por comentário ou e-mail brulf@hotmail.com

Brunella França

ES. 23 anos. Estudante de Jornalismo. Autora abcLES. Colunas: Ménage à Quatre, O amor que ousa dizer o nome. [Perfil]

 

 

Comentários

6 comentários para “Sangue Gay”
  1. Marcia Paula Marcia Paula disse:

    Nunca consegui doar por que não passo no teste da anemia, mas continuo tentando. É uma ironia, pois tenho muito sangue. Nada, absolutamente nada, justifica essa proibição da Anvisa, eles até tentam dar uma justificativa, mas não cola.

  2. Angel Angel disse:

    O pré-conceito (com essa grafia sempre) me revolta.
    Quando li o questionário pela primeira vez, aqui em SP, quase surtei, ainda hoje, surto (pra não usar um palavrão).
    Continuarei a dizer aos meus acompanhantes de banco de sangue que são gays: ““bicha se você der pinta aqui dentro você vai sair daqui no rabecão, pq eu vou te matar”.

    Coincidência: ao abrir meu e-mail agora deparei-me com a seguinte manchete: Governo quer que jovens e idosos doem sangue (http://br.noticias.yahoo.com/s/02062010/25/manchetes-governo-quer-jovens-idosos-doem.html)

    Os bancos precisam de sangue, mas recusam quem pode doar.
    Revoltante!!!

  3. Adri Almeida Adriana_Almeida disse:

    Interessante
    Mas os gays pelo jeito prefere sair na rua fazendo um carnaval fora de epoca
    como essas paradas gays que nao somam em nada para a causa.
    do que se preocupar em conseguir seus direitos…
    por que nao juntam essas quase 3 milhoes de pessoas q vao a parada de Sao Paulo,mais nao sei quantos de outros estados,aqui na Bahia varia de 600 a 800 mil pesssoas,e nao fazem um seper abaixo assinado para mudar isso na anvisa?
    Sabe porque?
    Brasileiro adora pao e circo. :(

    • Eu sei q existem movimentos articulados que lutam contra essa proibição absurda, mas de fato não são todas as pessoas engajadas na causa. Como ocorre tbm em outras situações.
      Eu não resumiria tudo no gosto pelo pão e circo. E as paradas têm sua importância.
      ^^
      bjos…

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