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Toma que o movimento é seu

21 de abril de 2010 por Brunella França  
Arquivado em Destaques, O amor que ousa dizer o nome

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O convite veio por e-mail. Escrever uma coluna para o abcLES sobre o Movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) no Brasil. A primeira reação foi: uau! E a vontade de dizer sim imediata. O medo também. O assunto é bastante sério e logo percebi o tamanho da responsabilidade que seria tratar dele. Mas o desafio só é insuperável se você se recusa a enfrentá-lo. Aqui estou eu, portanto, para dividir este espaço com todas vocês.

Espero que esta coluna seja uma parceria entre nós, que não apenas eu traga temas que envolvam o movimento LGBT, mas que vocês também contribuam e apresentem suas próprias discussões. Assim, por certo, fica bem mais interessante e seremos muitas falando. Gosto mais desse plural.

Com o sim ao convite, comecei apensar num texto de estreia. Missão não muito fácil dada à vastidão do assunto. Como forma de me preparar para ocupar este espaço, comprei e li Devassos no Paraíso – A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade, de João Silvério Trevisan. Super recomendo a leitura! É informativo e fácil de ler.

Mas para início da nossa conversa aqui, este texto tomou outro rumo. Ser ou não ser? Essa pergunta seria a síntese do paradigma da existência? Temos todas que vê-lo assim, na linearidade e na pureza do primeiro verbo, na nudez do princípio de tudo?

A questão, para mim, é outra. Em recente declaração, o cardeal espanhol Julian Herranz, na Rádio do Vaticano, afirmou que “o Papa defende a vida e a família baseadas no casamento entre um homem e uma mulher, em um mundo onde há pressão de outros grupos para impor um estilo de vida diferente” (grifos meus).

Pois bem… Parece-me que há algo muito equivocado aqui. Vivemos num mundo totalmente heterocêntrico. O modus vivendi heterossexual está em outdoors, em televisão, em nossa casa e em nossa família, nos livros e filmes (inclusive infantis), na Constituição Federal. Se há alguém impondo alguma coisa aqui não são os homossexuais.

Somos ensinadas desde pequenas que as meninas crescem, casam-se com lindos rapazes e são felizes para sempre. Só posso rebater dizendo que essa é uma visão muito limitada sobre o indivíduo. Não há como simplificar quando se trata de seres humanos.

O que quero observar com vocês é que uma pessoa que se enquadra nos padrões ditos normais pela sociedade, não corre o risco de perder o emprego por conta de sua sexualidade; não tem que esconder desejos, sentimentos e relacionamentos. Não existe um ambiente hostil para a heterossexualidade (por que haveria?). Não existe a zombaria e os olhares; as piadas e as insinuações.

Eis aqui o ponto no qual queria chegar: quando assumimos o que somos, quando vivemos o que somos, estamos dentro de um movimento. Não é pensado, imposto, nada disso. O raciocínio é o seguinte: se no mundo em que se vive não há lugar para a sua singularidade enquanto ser humano é preciso lutar por esse lugar. Seja consigo mesmo, seja na família, entre amigos, na profissão.

Por isso, o movimento começa com cada uma de nós, dentro de cada uma. O movimento não é participar de uma Parada Gay, tremular bandeira. Ou não é apenas isso. É sair de casa com a namorada; andar de mãos dadas e trocarem carinho em público; não aceitar piadinhas ou brincadeiras de mau gosto tratando sobre a homossexualidade; não esconder o que você é.

A sexualidade é apenas um elemento que compõe uma pessoa. No entanto, é um elemento importante, com efeitos no “quem sou eu”. É natural que queiramos ler histórias nas quais o casal sejam duas mulheres, que queiramos filmes, seriados, produtos que respeitem e valorizem o nosso desejo.

Buscar isso é parte do movimento sim que, a princípio particular, torna-se coletivo quando muitas outras garotas querem ler, ver, apreciar o mesmo que você. Não fosse assim, espaços como o abcLES não existiriam.

Quando nos permitimos conhecer a nós mesmas, nossos medos, sonhos, sentimentos e desejos, estamos fazendo o movimento. Pensar, refletir, analisar, ponderar, pegar a chave que está no íntimo e abrir a porta que está em nossa frente é fazer parte do movimento.

Depois de refletir em cima das discussões propostas no livro de Trevisan, posso dizer que antes de pensar em grupos de discussão, de reivindicação, o movimento LGBT começa dentro de cada uma. Então, toma que o movimento é seu. É nosso.

Brunella França

ES. 23 anos. Estudante de Jornalismo. Autora abcLES. Colunas: Ménage à Quatre, O amor que ousa dizer o nome. [Perfil]

 

 

Comentários

11 comentários para “Toma que o movimento é seu”
  1. Mel C disse:

    Parabéns pela coluna.
    Abordou o tema de uma forma objetiva e clara.
    Sucesso moça
    bjs

  2. Angel Angel disse:

    Adorei o texto… adorei saber que teremos colunistas… adorei a nov cara do site…
    Brunella, parabéns… sucesso e flores sempre!!!

  3. Desiree, obrigada pelo carinho e pelo comentário! O espaço aqui é totalmente aberto, tá?! À vontade para sugestões.

    Dani, chefinha, não posso deixar de agradecer o convite para estar aqui! Estou muito feliz. Obrigada mesmo. Estou muito feliz por fazer parte desse time =D

    Amor *-* Vc aqui é tão especial pra mim. Obrigada pelo apoio sempre, por não me deixar desistir nunca. Te amo.

    beijos beijos
    Bru

  4. Lou Melo disse:

    Brunella!!! Bem vinda… que Orgulho poder ler palavras como essas. Acordo em cada frase, e termino num grande suspiro… de esperança pq não?

    Parabéns!

  5. Luna Angelia Moonlight disse:

    Como sempre um trabalha maravilhoso,não esperaria menos de uma escritora tão talentosa e de uma pessoa tão querida.meus parabéns bela,ficou muito bom.São de pessoas com essa cabeça que precisamos.beijos linda ^~

  6. Brunella, bem-vinda ao nosso staff de colunistas! Que você possa nos brindar mais e mais com ótimos textos =)

    Bjs!

  7. Muito bom, de verdade e digo que concordo com cada linha do texto!
    Parabéns!!

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